Em dia de greve geral por todo o país, com os conhecidos acontecimentos, nada melhor que uma banda que em tempos idos se intitulava de anarco-punk, para dar voz ao grito de revolta pela decadência crescente do estado social. A verdade é que os The Ex e aquilo que apresentaram, já se encontra muito distante da sonoridade desse movimento. Apesar do conjunto de três guitarras, os holandeses debitaram um rock polido, com acordes groovescos, capazes de corromper qualquer um, longe de tumultos sonoros e com a possibilidade de descortinar os ritmos de cada instrumento. Contudo, mesmo esta designação se tornou redutora para o que tocaram. Música de fusão, étnica e com toadas extremamente funk poderão ser dimensões a que não escapam.

Apesar de já não serem nenhuns miúdos, continuam a manter uma postura invejável para muitos pirralhos. Com uma jovialidade contagiante, parece que nunca deixaram de ser um projecto criado durante as aulas do secundário. Dançaram, rodopiaram com as guitarras, espernearam e foram capazes de transmitir uma clara sensação de que, não só a música era boa, mas que também eram, e são, boa gente. Não há forma de não se ter sentido uma aproximação imediata para com Terrie Hessels, o único membro fundador na composição presente, quando se o observou a tocar com uma vontade imensa e sem fazer fretes. A carpete da ZDB que o testemunhe.

Os The Ex mostraram que ainda é possível haver diversão depois de três décadas de existência, e o confronto de guitarras em que cada um se dirigia ao outro, como que pedindo um riff, para contra-argumentar de seguida, mostrou que o quarteto encarnou de forma extremamente palpável o termo World Music, e que a expansão e o experimentalismo estiveram bem presentes no palco.

Assim, não se estranhou a constante recorrência a ritmos africanos. Os próprios admitem que essa é uma influência actual, e a bateria e o cantar em dialecto de Katherina Bornefeld tornaram-se um importante contributo para que todos aqueles compassos musicais fizessem transpor paras as povoações tribais em que as danças, os rituais e os movimentos compulsivamente estimulantes, estão intimamente ligados à música. Por isso, não surpreendeu o facto de Arnold De Boer, vocalista e guitarrista, ter louvado o público pela resposta dançável. Porém, não poderia ter sido de outra maneira, não havendo memória de um rock tão livre e dançável como o dos The Ex.

Depois do primeiro regresso ao palco, os presentes não estavam ainda satisfeitos e, se actualmente na maior parte dos casos se questiona a necessidade de encore, com eles fez todo o sentido. Nem nós, nem eles estávamos ainda saciados e existia uma necessidade mútua por suprir. Se a voz nunca perdeu a compostura e se mostrou sempre sóbria e adaptada ao som de todos os instrumentos que se mostravam, no bom sentido, pouco cooperantes, dos que compunham o aquário da ZDB só se transmitiu para os holandeses uma apreciação imaculada pelos seus temas.

Existem situações para as quais não se encontra uma explicação. O facto de em 33 anos de existência nunca terem tocado em Lisboa, será uma dessas. Durante cada milésimo de segundo, o quarteto comprovou que toda a espera valeu a pena e que, finalizado o concerto, banda e público ficaram com a noção que não faz sentido esperar tanto até uma próxima vez.