Sejamos sinceros, quantos de nós esperaríamos que os The Dillinger Escape Plan ainda fossem relevantes em 2013, catorze anos depois de Calculating Infinity ter germinado num planisfério até então incógnito? A arrítmica cadência, levada a ombros por um Ben Weinman ébrio ad-eternum no descompasso, dava todo ar de ter os dias contados assim que o aborrecido déjà vu tomasse o lugar da inicial surpresa. Seja por eventos biográficos – a saída voluntária de Dimitri Minakakis, substituído interinamente por Mike Patton num enorme Irony Is A Dead Scene e definitivamente por Greg Puciato – seja pelas suas convulsas apresentações em palco, os DEP exponenciaram a sua esperança média de vida por mérito próprio.

No entanto, de pouco valeria aos norte-americanos a sua performance quase circense, de tão acrobática, se os álbuns não fossem alimentando o seu monstro de estúdio – um bicho que, com década e meia de vida, dá ares de frankenstein pela sua distensa multiplicidade. Os The Dillinger Escape Plan sempre tiveram uma natural (e compreensível) aversão ao tédio e seria de uma ironia tamanha sucumbirem perante aquilo que mais temem – daí que, desde Miss Machine, jamais os seus braços tenham flectido na incansável procura de novos elementos. Quantos não torceram o nariz ao fofinho refrão de Unretrofied, assinando logo de seguida uma certidão de óbito quando escutaram os versos macios de Black Bubblegum? Pois seriam esses os primeiros a bocejar se os DEP tivessem oferecido nova dose do tal… Mathcore. A expectativa com que saltamos para cima do corpanzil de One Of Us Is The Killer dimana-se precisamente desse jogo de infiltrações que, sob relance inicial, nos é sempre bizarro – Option Paralysis mostrou em Widower que os homens de New Jersey podem ser até carregadores de piano, sem nunca nos garantir que todas as teclas sobrevivem para contar a história aos netinhos.

O novo trabalho dos The Dillinger Escape Plan é o mais assertivo passo dos norte-americanos rumo a essa idílica simbiose que tanto pretendem desde Ire Works, onde o caos cumprimenta a melodia. Estruturado em quarenta minutos, One Of Us Is The Killer lima as imperfeições do seu antecessor – que mostrou um exagerado descaramento nas suas mutações estilísticas, inclinando-se em demasia sobre o legado dos Faith No More – e recoloca o desvario de Ben Weinman novamente nos eixos correctos. Em replique à impetuosidade de Option Paralysis, há uma subtileza na composição escolhida para este álbum: Prancer sugere uma inicial sensação de «mais do mesmo, lá estão eles», que aos poucos nos vai sendo retirada, sem recorrer a uma desmedida seringadela de aditivos. Quando damos conta, a faixa homónima desenreda-se habilmente num mid-tempo sussurrante – o início é tão semelhante a Washer dos Slint – onde Puciato se entrega ao falsete, regressando logo ao seu típico registo em Hero of the Soviet Union, um dos temas que mais agradará aos fãs da velha guarda pela óbvia violência.

A complexidade de texturas dos The Dillinger Escape Plan tem em Nothing’s Funny outro gritante exemplo: a um riff de abertura sacado aos Botch, adiciona-se um “refrão” que nos atira para I Started a Joke dos Bee Gees, onde se escuta melodicamente «But now I see that the joke’s on me”. De songwriting aperfeiçoado, a descontextualização deste género de nuances é prescrita e, quando Paranoia Shields repete o modelo de Nothing’s Funny, a surpresa de um interlúdio de bossa nova apenas nos agrada, não nos repele pelo possível despropósito. CH 375 268 277 ARS (é assim mesmo que se intitula), por sua vez, oferece-nos quase três minutos de um instrumental onde os layers se aglomeram em justaposição, num noise-meets-prog-metal que nos assegura que Billy Rymer é o melhor baterista que esta banda já conheceu.

One Of Us Is The Killer, convém frisá-lo, é um registo feito por gente que leva mais de uma década consecutiva na estrada e mais de trinta anos de vida. Manter uma tempestuosa e interessante fúria na escrita é notável: quem diria que em 2013, lá está, haveria uma Crossburner de cinco minutos para ouvir, onde o dedilhado de guitarra à Sugar Coated Sour se entranha numa descarga sludge ao melhor estilo de Worms Feed dos Converge? Conversando numa engenhosa argúcia, o quinto álbum dos The Dillinger Escape Plan é a negação do prazo de validade. Não haverá brechas no seu império com One Of Us Is The Killer.