Não há ensaio sobre graves que actue sobre o corpo com a mesma intensidade que “Angels & Devils”. Senhoras e senhores, esqueçamos as frequências que levam espinhas a curvar, porque as de electrónica furam tímpanos até ao cérebro, vocalizadas a preceito no novo disco de The Bug. Este é o registo dos subgraves, a reverberar no subconsciente e a crescer no peito enquanto a consciência desperta para a dualidade presente no registo. Kevin Martin, não podias ter regressado em melhor forma.

Desde que “Void” se instala, narrado em surdina pelo encantamento de Liz Harris, que o que não se ouve — mas se sente — se torna protagonista de todo o detalhe deliciosamente colocado, camada a camada, num sentimento de negrume que, mesmo em dualidade, é essência de tanto “Angels” quanto do seu reverso “Devils”. E até as colaborações, nas vozes inconfundíveis da senhora Grouper, Miss Red, Flowdan, e de Stefan Burnett (Death Grips), são subjugadas ao poder dos decibéis.

Tudo, mesmo na acalmia das primeiras seis faixas, e no reverso êxtase das demais, se pode resumir à envolvência do volume — o processo de gravação traduz-se na recriação da experiência, de se sentir o cartão da coluna a rasgar em “Void” e “Ascension”, na reacção ininterrupta de uma snare, ou de se problematizar a segurança de um chão em “Function” (onde groove e melodia zombam das profundidades espaciais: «I’m just tryin’ to function», cospe Flowdan).

The Bug engendrou um esquema tão complexo quanto os circuitos que lhe servem de meio para compor: apetrechar de ruídos música que não basta ouvir — levar ao gritante, ao ensurdecedor, contornando a cacofonia com os ritmos nada óbvios da electrónica, induzindo ao trance com a aparente repetição. O que o corpo sente, em “Angels & Devils”, o corpo retribui. Não é uma opção, é uma necessidade.