É indesmentível que entre Monologue (2008) e Har Nevo há uma cabal longitude que os distancia. Se o primeiro medrou por entre as raízes do screamo europeu, de vistas postas nos contemplativos crescendos post-rockish, o segundo disco dos The Black Heart Rebellion conduz-nos aos pântanos onde conjuram as essências vanguardistas, dispostas a conduzir os belgas ao topo da cadeia daqueles que, pelos dias que correm, se dedicam a extrapolar limites.

Os cincos anos que intervalam os dois registos mostraram aosTBHR novas veredas a percorrer – e isso torna-se facto assim queAvraham, faixa de abertura, irrompe. A ofegante respiração de Pieter Uyttenhove, enlaçada a um jogo percussivo que se lança em nosso alcance, marca o tom de um disco que, daí em diante, não mais volta à superfície. A cada tema, um patamar é descido, avultando-se não só a penumbra, como uma inquieta aura; ouça-se Circe e encontre-se verosimilhanças com as perturbantes e atractivas atmosferas construídas por referências como Swans ou Neurosis.

O tom descaradamente folk das guitarras e a inclusão, até, de um bandolim, nunca deixam que Har Nevo abandone as florestas sugeridas pelo clip de Avraham. E, acrescente-se, há pouco que nos possa remeter sequer para a figura humana – neste trabalho, os The Black Heart Rebellion são figuras de um bestiário e não só não o renegam, como o comprovam na psíquica Animalesque. A percussão, essa, dificilmente poderia ressoar mais cerimonial, imprescindivelmente coligada a um Uyttenhove que parece encarnar o espírito apache de David Eugene Edwards, delineando paisagens sem vislumbres citadinos e resgatando o lado mais primitivo que em cada um de nós existe.

Dentro da colectividade artística Church of Ra, os Amenra, seus fundadores, estavam até agora descaradamente destacados das restantes bandas nela integradas. O sucessor de Monologue detém em si todas as qualidades para colocar osTBHR na dianteira do que de mais original se faz nesse recanto belga e, por consequência, em toda a esfera global da música alternativa. Reconhecendo-o, Colin H. van Eeckhout e Mathieu Vandekerckhove abençoam o álbum com os seus talentos no tema Ein Avdat, naquele que é um confesso apogeu de Har Nevo – disco que arduamente será destituído das suas divisas de soberano em 2013.