Ainda o violento ribombar do habitual fogo de artifício fazia cócegas no pavilhão auditivo dos presentes, já os Teratron tinham subido ao amovível palco disposto na Praça São João Baptista. Escolhidos pelo concelho de Almada como banda de proa nas comemorações do 25 de Abril de 2011, o grupo dos ex-Da Weasel João Nobre e Pedro Quaresma apresentou As Cobaias (2010), álbum que é segundo na discografia e que conta com uma história de fundo criada por Adolfo Luxúria Canibal – desdobrável, para além da música, em filme 3D e livro.

A voz do actor Miguel Guilherme, o narrador de As Cobaias, captou a atenção das centenas de pessoas dispostas em frente ao palco, introduzindo-as, tal como acontece no disco, para uma shortstory sci-fi onde o Professor M. é personagem principal. Uma introdução sucedida pela explosão veemente de um electro arraçado de rock musculado, capaz de trazer à memória uns Prodigy abraçados à crew francesa Ed Banger. Se a princípio até parece estranho ouvir o vocalista dos Mão Morta sobre um instrumental assim, depressa a estranheza passa às entranhas. Até porque, é justo dizê-lo, o álbum ganha uma dimensão bem mais imponente ao vivo, conectado a dois ecrãs gigantes onde o filme de animação é revelado em perfeita sincronia.

SP, rapper dos SP & Wilson, entrou a meio para Pista Chinesa, substituindo Adolfo. Com uma abordagem bem mais tradicional do que o pouco ortodoxo bracarense (é impensável imaginá-lo a pedir a Almada para “tirar o pé do chão”), SP conseguiu de imediato envolver o público no concerto, até porque as duas faixas em que participa têm uma estrutura upbeat declarada, pronta a agitar as massas. Todavia, a boa energia criada pelo rapper foi quebrada pela parte do álbum que compete a New Maxdos Expensive Soul. É verdade que Zelyun 43 já é uma das músicas-bandeira de As Cobaias (o verso “Sou imune ao teu lume” é catchy o suficiente para meter a plateia a repeti-la em poucos segundos), mas o facto de o vocalista não ter marcado presença e ter sido substituído por uma projecção acabou por tirar o ímpeto que vinha a ser embutido.

Tanto que, aquando do final de Assalto ao Pôr-do-Sol, última faixa do disco, o público ficou um tanto ou quanto surpreendido e atarantado com a quebra abrupta do concerto e com a saída da banda. Antes do encore, é tradicional a existência daquela atmosfera que leva a plateia a pedir por mais. Isso não aconteceu: as palmas foram moderadas e o êxtase nulo – o que também acaba por ser compreensível, grande parte dos que por ali estavam não conheciam o projecto. Ainda assim, o grupo voltou ao palanque, desta vez com Backyard Bully, rapper londrino e convidado especial dos Teratron no primeiro álbum. Rebel e Go Skitzo, faixas onde o músico participa no disco, encerraram a noite de forma positiva perto das duas da manhã, quando o cansaço já se fazia sentir. Em suma, nota positiva para o concerto e um bom trunfo da Câmara Municipal de Almada, que continua a apostar em projectos virados para os mais jovens, evitando cair no erro comum de fazer do 25 de Abril um acontecimento somente virado para o passado.