Os Teeth Of The Sea estreiam-se em Portugal e, mesmo que seja complicado dizer com certeza, antecipamos que nos chegam na altura certa e num festival que melhor terá a capacidade para vibrar com eles. Na mala trazem “Master”, o disco que marca uma mudança já antecipada, mas também o desejo pela maior incorporação dos sintetizadores. Nada como testemunhar a perícia com que encaram o palco quando a ele subirem no dia 26 de Julho a propósito do Milhões de Festa.

Como se iniciou a Aventura dos Teeth Of The Sea?

Tudo começou no ano de 2006 em Londres num concerto dosWolf Eyes no Electrowerkz, um local perto da estação de metro de Angel – que se assemelhava a estar na nave espacial Nostromodo filme “Alien”. Quatro dos cinco membros originais assistiram ao espectáculo e acabaram num considerável estado de estupefacção com toda a experiência. Mais do que alguma vez antes, tivemos uma ideia clara de criar música noise e experimental com uma abordagem despretensiosa e ao mesmo tempo hedonística. Adorámos toda a atmosfera de deboche e perturbação que aqueleshow proporcionou. Naquela altura andávamos todos a ouvir bandas como Lightning Bolt, Boredoms, Liars e Comets On Fire, e todas essas influências ajudaram a criar o conceito inicial dos Teeth Of The Sea.

Mantêm-se fiéis à Rocket Recordings. Sendo uma editora bastante proeminente em edições de novas bandas mas, também de bandas feitas, como surgiu a vossa colaboração com eles?

Em Setembro de 2006, munidos apenas de uma demo caseira com uma faixa (intitulada “Only Fools On Horse” – que acabou por ser a versão gravada para o nosso primeiro álbum), distribuímos vários CDR´s em diversos concertos. Fomos ver ao Bardens Boudoir uma das nossas bandas preferidas, The Heads, e entregamos imensos CDS como se de folhetos se tratasse. Um deles acabou nas mãos do DJ daquela noite, que era o Chris da Rocket Recordings. Ele escutou, gostou e mostrou aos Johnny Rocket, que também achou interessante. Entraram em contacto connosco e acabamos por lhes enviar mais material. Fomos incrivelmente afortunados por, de forma acidental, encontrar uma editora única.

O vosso último disco, “Master”, consegue manter uma divisão entre os temas. Vai desde o ambiental ao noise. Assim de caras, diria que vocês são pouco dados a fórmulas concretas. A experimentação e a procura de novos caminhos é preponderante para vocês?

Absolutamente. Não achamos que faça sentido repetir o trabalho nem de outros, nem de nós próprios. A experimentação é tudo para nós, e se algo nos transmitir o entusiasmo ou o choque da novidade, então percebemos que estamos na direcção certa. Temos sempre feito o possível para evitar uma abordagem formulada. Todos ouvimos uma grande quantidade de diferentes estilos, e é engraçado saber que podemos baralhá-los a todos e acabar por construir algo “fresco” e coerente.

Em “Orphaned By The Ocean” as vozes não eram sujeitas a nenhuma metamorfose ou distorção. Contudo, em “Master” aparecem na maior parte das vezes distorcidas. Era esse o caminho que pretendiam?

Sempre utilizámos vozes em todos os nossos discos, roçando o subtil e fantasmagórico. Acabam sempre por ser afectadas de alguma maneira, ou usadas de forma pouco convencional. Contudo, são um ingrediente importante. Podem transmitir qualidades ora emotivas ora enervantes. Nunca nos considerámos uma banda instrumental, apesar de ser justo esse rótulo.

Sendo o instrumental a grande fonte da vossa música, existe algum conceito e fonte de inspiração para os vossos discos?

Não existe um conceito em si para os nossos álbuns, no entanto, algumas pessoas interpretam dessa forma, e isso deixa-nos bastante contentes. A inspiração vem de todo o lado, desde filmes, livros, discos, os momentos do dia-a-dia, as suas circunstâncias e envolvências. Estivemos envolvidos na criação de algumas bandas sonoras antes de “Master”, que também alimentaram o processo criativo deste registo. “Reaper” foi baseado no filme de 2008 “Doomsday” de Neil Marshall, e “Siren Spectre” foi inspirado no 2001:A Space Odyssey, de Stanley Kubrick.

Apesar de não ser uma mudança extrema, notam-se algumas diferenças no vosso som. “Master” é maioritariamente um disco que trata o psicadelismo por tu.Esta progressão foi pensada ou surgiu da vossa inspiração?

É difícil julgarmo-nos. Não temos qualquer interesse em sermos uma banda tradicionalmente psicadélica, mas não temos receio dessa associação. Tentamos ir alternando e divergindo entre vários estados. É quase um cliché dizer que foi propositado, mas “Master” surgiu espontaneamente – apenas nos sentámos para coordenar a ordem das malhas, mesmo no fim. Queríamos realmente que tudo soasse massivo e impressionante.

Ao passo que o trompete continua incrível, a guitarra parece perder espaço para os sintetizadores neste disco. A que se deveu esta opção?

Temos escutado imenso “disco”, e vários estilos de electrónica. Eu sou o guitarrista, mas, há cerca de três anos, e depois de “Your Mercury”, adquiri uma Roland Juno-60 e comecei a usar muito mais teclas, essencialmente porque esta junção pareceu mais excitante e fresca. Na verdade temos a tendência para seguir aquilo que mais nos agrada, e o material mais centrado nos beatse nos sintetizadores, parecia mais certo do que o caminho do rock. As bandas que mais me têm entusiasmado ultimamente são artistas como os The Knife e os Chromatics, que se baseiam na electrónica. Apesar disso, fazemos questão que exista sempre uma quantidade considerável de riffs, uma vez que, também os adoro.

Como é viver em Londres, uma das cidades que mais cativantes megalómanos da música? Para além dos vossos concertos, mais a recheada agenda de eventos diários, por vezes, deve ser difícil saber o que escolher, não?

Quando me mudei para Londres senti-me bastante assustado com a variedade da oferta, já que qualquer banda no mundo acaba por visitar a cidade. Há mais pontos positivos a destacar do que negativos, desde que tenhas bom senso de não estoirar o dinheiro todo. Já vi espectáculos incríveis em Londres, mas mais importante que isso é que a génese e a evolução dos Teeth Of The Sea foi centrada à volta da metrópole, em termos de atmosfera e música. Mais do que a agenda musical, é a história e vibração única deste lugar que mais seduz. Pode ser um lugar mágico se for encarado de forma certa.

As vossas capas são quase enigmáticas. Alguma explicação por trás dos conceitos das mesmas?

As capas dos nossos três longa-duração foram feitas pelo John Ball, um bom amigo que conheço desde os tempos em que ele tocava numa banda chamada Ikara Colt. Queríamos uma certa continuidade nas mesmas que apenas podia ser conseguida se optássemos pelo mesmo artista. Essencialmente, o John dá sentido a todas as ideias que circulam nas nossas cabeças. No caso de “Master”, o processo quase deu com ele em louco. Quando estamos demasiado envolvidos num acontecimento, torna-se difícil ser objectivo, e isto pode transformar-se numa catarse criativa. Estamos muito felizes com o que ele criou.

Vi o vosso concerto no Supersonic e não vos conhecendo fiquei fascinado pelo vosso som. O palco é um habitat natural e com intervenção naquilo que fazem?

Os concertos são muito importantes para nós e, mesmo que não consigamos replicar alguns sons, o aspecto visceral de tocar ao vivo é tão poderoso quanto o esculpir dos temas. Nunca poderíamos existir apenas como uma banda de estúdio. Antes de gravar, experimentamos muito em palco, e a química entre os quatro nesses momentos é crucial para a posterior criação do material. Mesmo que soe estúpido, continuo a considerar-nos um projecto de rock ‘n’ roll em termos de energia e valor, talvez um pouco contorcido e evoluído.

A presença no Milhões de festa em Barcelos marca a vossa estreia em Portugal. Expectativas em alta?

Muito. Nunca estive em Portugal e estou muito ansioso para chegar. O festival parece ser incrível e estamos muito honrados por tocar com artistas do calibre dos High On Fire, da Chelsea Wolfe, de Fumaça Preta e dos Earthless. O Matt Pike dos High On Fire, em particular, é um dos meus heróis de todos os tempos. Apenas esperamos que o Milhões de Festa aguente connosco.

O que nos reservam para o futuro? Estão a trabalhar em novas composições?

Acabámos de ter uma performance audio-visual intitulada “The Last Man” no CERN na Suiça, a propósito do Festival Cineglobe e também no Transylvania Film Festival em Cluj, na Roménia. Estas ocasiões deram-nos a oportunidade de reunir novo material, o qual pensamos tocar como parte do alinhamento e, provavelmente, será registado posteriormente. Assim, vamos fazê-lo novamente no Latitude Festival em Inglaterra uma semana antes do Milhões de Festa. Existem também uma meia dúzia de outros projectos em andamento, mas não quero agoirá-los por falar demasiado cedo. Gostamos de nos manter com pés de lã, pois há sempre sarilhos que cheguem à nossa volta. Temos o hábito de ter mais olhos que barriga.