Tau Cross - "Tau Cross"
7.5Relapse

Que a soma de boas partes não faz por direito canónico ou à mercê do silogismo simples um grande todo já o sabemos por más experiências. São tantos os supergrupos que, armados Titanic, afundam logo à saída da Trafaria, que só por manifesta inocência e/ou ingenuidade nos deixaríamos conquistar apenas por conhecer a formação dos Tau Cross. Ter o Rob Miller de Amebix comofrontman ou o baterista de Voïvod no drumkit não implica um novo “Arise!” ou o epílogo do “Killing Technology”. Nem os guitarristas Jon Misery e Andy Lefton, conhecidos no undergroundamericano pelo seu curriculum crust, consagrariam a priori um qualquer projecto apenas porque sim.

Felizmente, Tau Cross não é um desvario ou uma crise de meia-idade. Nem este registo é um puro acervo de tudo o que foi feito no passado, uma espécie de museu em carne viva só com o passado para contar. Ouvi-los é perceber o porquê, isso sim, de tanta gente considerar Amebix e Voïvod dois absolutos baluartes no metal/punk. A sério, perguntem aos Neurosis quais são os seus discos favoritos. Enquanto os primeiros se dedicavam a levar o punk a outros mundos que se julgavam impossíveis para quem no início só sabia três acordes de guitarra, atribuindo ao crust uma profundidade psicológica que lhe era desconhecida, os segundos mostraram que o thrash não era só calçar sapatilhas brancas e ganhar barriga de cerveja. Ambas recusaram-se a ficar pelos limítrofes, pela réplica extenuada de que tudo o que lhes acontecia à volta. Por isso mesmo conseguiram influenciar progressivas gerações, mais tarde cunhadas pelo jornalismo musical como sludge, post-metal ou neocrust.

“Tau Cross” revela o quão rica é a biblioteca destes quatro homens. São doze faixas que respiram o feeling mais clássico do heavy metal, por vezes na fronteira do epopeico com refrões que poderiam resgatar o fã de estádio dos Iron Maiden que há em nós, misturando-o com um sentido de abertura notável. Os limites impostos são nenhuns [só por aqui nos lembramos dos lemas maiores de Amebix] e observamos como essa reminiscência old school, capturada de uns anos 80 que hoje em dia apenas passam nos decks dos DJs mais corajosos, se cruza com a aptidão para o rock’n’roll mais orelhudo [“You People”] ou para as experiências quase new wave de uns Killing Joke [“Sons Of The Soul”]. É um disco polivalente, com mais de quatro naipes para jogar e até, porque não, sábio. A sapiência de Tau Cross está selada em 55 minutos que um bom conhecedor de rock apreciará.