O segundo dia prometia ser o dia mais afoito do festival. A chuva que não dava descanso era certamente algo que não incomodaria os irlandeses Primordial, que estão bem habituados a um clima molhado no país de origem. Mas por esta altura já havia algumas baixas na multidão de tendas que inunda os limites da do recinto.,

Ainda havia muita gente a dormir quando os Myteri abriram o dia na SWR Arena. Tentaram puxar por quem já estava ali, mas havia mais interesse na protecção que a tenda oferecia face à intempérie do que exactamente pelo crust melódico dos suecos. Os brasileirosImminent Attack tiveram bem mais sucesso em agitar os corpos, não obstante serem iguais a centenas de bandas de crossover e thrash que por ai andam.

A abertura da tenda fazia-se com Örök. Os portuenses lançaram em 2013 um álbum homónimo que passou algo despercebido para quem não está tão atento mas “Übermensch” promete ser um dos grandes lançamentos de 2015 por estes lados. Black metal atmosférico e hipnótico com uma áurea de Darkspace, caso esses estivessem num sítio onde houvesse algum oxigénio. O facto de o som não ser demasiado sufocante só joga a favor do trio, que consegue assim encaminhar a atmosfera para algo mais cristalino e até épico. Ninguém se confunda com a falta de corpse-paint: isto não é a resposta portuguesa a disparates como Deafheaven.

O ambiente ficou gélido e sereno, mas logo começou a recuperar velocidade com os brasileiros Claustrofobia que espalharam o caos por entre uma sonoridade à lá Sepultura (antigo, claro…) e covers de RDP. O death metal de Bleeding Display acabou por ser uma continuação lógica, se bem que largamente menos interessante.

Era tempo pois para uma das principais razões para se fazer a deslocação até Barroselas este ano: Bong. Não se vislumbraram bongos mas não foi preciso. A actuação de Mike Vest & Cª Lda. foi uma autêntica injecção de THC directamente para as cabecinhas dos presentes… e, como às vezes acontece com essa substância, há sempre alguém a dar para parvo. O som de Bong é repetitivo até à exaustão e porventura um palco tão grande não seria a escolha principal, mas tinha-se dispensado o ruído numa actuação que se quer sobretudo introspectiva. Não foi o suficiente para beliscar um dos grandes momentos do SWR 18, que envolveu o recinto durante três quartos de hora numa enorme névoa onde só a voz muito ocasional de Vest irrompia num mundo que se foi tornando cada vez mais cinzento. Se o SWR tivesse acabado ali, já teria valido a pena suportar as agruras da viagem e do clima.

Seguiu-se a habitual troca de slots do Barroselas (e que este ano até foi bastante refreada face a edições anteriores) com a tocar no lugar de Emptiness. Felizmente a troca foi facilmente detectada e calhou em boa hora para jantar num dia em que havia poucos tempos mortos.

Após a visita às rulotes, seguiu-se o primeiro momento dedicado ao black metal de cariz mais ortodoxo com Enthroned. Donos de uma carreira com mais de vinte anos, os belgas deram um dos concertos mais intensos do festival, em que nem o atraso dePhorgath (também de Emptiness e daí a explicação para a troca anterior) conseguiu parar a máquina infernal – com destaque para Menthor. O clima pesado e intenso manteve-se com ZOM a distribuir pancada como se não houvesse amanhã num misto excelente de black/death.

Se o dia tinha começado por parecer infindável tal a quantidade de momentos interessantes a ver, a realidade é sempre mais dolorosa. Os pés engalochados queixavam-se muito, mas a aparição de Primordial logo com “Gods To The Godless” funcionou como um analgésico durante a hora que se seguiu. Concerto cheio de feeling com um frontman anormalmente cativante e versátil, e malhas para dar e vender. Estão na vanguarda do que o metal mais acessível (salvo seja) tem para oferecer e, sendo esta a ideia que os irlandeses têm de Moonspell, só mostra cabalmente porque é que saíram da crise primeiro do que Portugal. Os riffs de “Bloodied Yet Unbowed” ecoariam por muitas cabeças até ao final do festival. “To the bitter end, to the end”!

Talvez tenha sido a sequência anterior que fez empalidecer a actuação de 11PARANOIAS. Se a formação é de luxo, o concerto foi morno. A gente como Adam Richardson e Mike Vest não se pede que cumpram, pede-se que suguem o ar da sala e enterrem vivos toda a gente. Infelizmente, os quarenta e cinco minutos que deveriam ter sido curtos foram demasiado longos e unidimensionais. Uma oportunidade perdida.

Já com o corpo a clamar por descanso, ainda houve tempo para que os checos Gutalax nos empurrassem para o sempre charmoso SWR Café de onde só se saiu para uma intensa actuação de Emptiness. Foi realmente uma pena que tivessem sido adiados para uma hora tão tardia, mas o som compassado dos belgas acabou por ser um encerramento perfeito. Ainda houve Mother Abyss, mas passando já das 3:30 da manhã, e depois de um dia esmagador não deu para mais.