Alemanha. País que jamais se escapulirá da cruz fascista que a História lhe enfia nas costelas. Uma névoa que tanta vez soterra os movimentos de esquerda – de Spartakusbund ao estóico anti-nazi KPD – e os cálidos labirintos escavados sob o cinzentão do muro berlinense. A sua capital, aliás, é provavelmente a cidade com a maior torrente contracultura do Velho Continente. Querem montar um concerto punk numa squat? Há dezenas. São prédios inteiros, onde o do it yourself respira de pulmões abertos: faz-se comida (os conhecidos VoKü), monta-se espaços para a projecção de filmes independentes, exposições e, claro, gigs dos mais extensos flancos musicais.

Os Svffer, não sendo de Berlim (vêm de Münster e Bielefeld), trazem no DNA essas ganas da contracorrente. Se por aqui lançarmos o pormaior de na sua génese terem ex-militantes dos Alpinist, a coisa ganha contorno acirrado. Há neles montes de repulsa pela sociedade contemporânea e, não partilhando o “niilismo activo” de uns Kickback, que ao mundo moderno só desejavam a morte, estes tipos movem-se nos carris de um desejo perpétuo de mudança para melhor. O facto de ao seu primeiro LP chamaram “Lies We Live” não é uma adolescente inocência: há neste ocidente, tal como os extintos compatriotas Masakari nos e lhes alertaram, mentiras demasiado grotescas para viverem sem objecção. “Orphan”, a meio do LP, resume a epístola que por aqui existe:

«Slay them for hunger
Slay those who are brave
Slay the collective
Till no one is honest
And gloom fills the veins.»

A frustração de um statu quo gélido e imóbil provoca-lhes aquela inquietação que só no hardcore encontra o obrigatório e (são) escapismo. Aí, os Svffer são crus desde o seu sete polegadas em 2013 editado: não há espaço para as guinadelas melódicas à Tragedy, regendo-se pelo cavalar ímpeto de quanto mais azedo for um riff… Melhor. Sobra-nos um crust sem intermediários, sem frívolos apêndices e hábil em nos relembrar o que eram os Dead In The Dirt antes de se meterem na estrada com os Sunn O))). As passagens mid-tempo, que tanto agradam àqueles que não vivem sem um side to side ou um empurrãozinho no colega do lado, espalham-se por todos os recantos e fazem de “Lies We Live” um ardiloso registo, espreitando entre o descontrolo powerviolence e o groove que os Oathbreaker acharam logo no seu EP de 2008. Ah!, a menina que por aqui berra, a Leonie, deve pouco à Caro.