Depois de um primeiro dia mais conciso em termos de actuações musicais, o segundo começa com a actuação dos Flower-Corsano Duo, englobada nas actividades dedicadas às crianças. Mais do que propriamente a performance do duo, o que entusiasmou foi a interacção que se criou entre o pequeno público e a sua exposição à música. Foi incrível testemunhar a forma como o festival pretendeu iniciar os miúdos no mundo da música e era impossível não surgir um sorriso perante a excitação destes com toda a situação que se gerava.

Dos Flower-Corsano Duo esperava-se tal e qual aquilo que deram, mas num formato ainda mais acústico. Instrumentalização com algum teor étnico e alguns pequenos laivos de experimentalismo e psicadelismo, inseridos numa forte componente de improviso e alguma exploração sonora. Nada de muito extraordinário, mas o suficiente para encantar o público presente.

Desfrutando de uma plateia com lugares sentados, Sir Richard Bishop centrou-se maioritariamente no álbum The Freak of Arabye na orientalidade que muitos dos temas transmitem. Não tendo nascido em nenhum território no qual exprime a sua música – pelo contrário, Richard Bishop é natural do Arizona – tornou-se transcendente perceber como conseguiu transmitir esse tipo de vivências através das suas cordas. No entanto, apesar desta forte componente, nota-se que muitos destes toques étnicos são adaptados e traduzidos em alguma ocidentalidade, podendo ser observados vários ingredientes, que por vezes recordavam algumas composições típicas do fado.

Contudo, é neste campo que Sir Richard Bishop se torna diferente. A apropriação dos temas pode ser gerida por cada um e, individualmente, ser compatível com os locais ou paisagens mais próximos de quem o ouve. Jogando com os crescendos e decrescendos, o membro fundador dos Sun City Girls utilizou um complexo e intricado jogo de notas, mostrando a sua capacidade para tocar os mais diversos tipos de acordes, limpos ou corrosivos.

Intitulado pelo festival como o padrinho do doom, pese embora que essa parentalidade possa ser discutida, a presença de Dylan Carlson no mesmo tinha como compromisso maior a apresentação de La Strega and the Cunning Man in the Smoke, o seu mais recente trabalho a solo. Contrastando com a actuação anterior de Sir Richard Bishop, o músico de Seattle leva as notas até ao extremo da sua existência em que o prolongamento ao máximo de cada toque que dava nas cordas conferia uma hipnotização constante. Presenciar cada gesto seu valeu por todo o festival.

Posteriormente, e já com banda em palco, interpretaram-se maioritariamente covers que foram desde Wicked Annabella dos Kinks até The Last Living Rose de PJ Harvey. Não correu de forma tão coerente como os momentos em que sozinho em palco encantou, muito por culpa da forma como  cantou os temas, notando-se poucas diferenças e incrementos positivos em relação aos originais. Apesar disso, o som que Dylancapta da sua guitarra é tão próprio e identificável que cada segundo é um momento temporal de paixão.

No Supersonic, Jarboe não surgiu na sua versão caótica e drástica, mas antes tendencialmente melancólica, triste e emotiva, conferindo uma encenação dramática a todos os temas. Altiva e com uma expressão carregada, acompanhou cada música com um gesticular frequente. Jarboe pouco olhou para quem tinha decidido perder os Bohren & der Club of Gore em seu prol. Qual feiticeira, sempre de olhos fechados, parecia estar inebriada por uma concentração total, que magicamente ia embarcando os presentes. Baseando-se numa interpretação extremamente lírica, o concerto da americana poderia ser relacionado com o seu vestido preto e com alguns traços reduzidos. A cada murmúrio ou palavra que empregava, colocava-se a descoberto em todos os momentos, desnudando-se em cada um deles. No fundo, tal como o seu vestido que lhe colocava a descoberto alguma pele.

Compostos por Ben Chasby, Sir Richard Bishop e Chris Corsano, os Rangda misturaram essencialmente toques de várias vertentes musicais sem se englobarem em concreto em nenhuma delas. Psicadelismo, post-rock, kraut, cada guitarra parecia ter o seu segmento e espaço delineado e, se do músico dos Six Organs of Admittance se ouvia uma maior rigidez e distorção, de Bishop testemunhava-se o já referido arabismo das suas composições que, misturado com todos os outros integrantes, se assemelhava a música para uma Jihad frenética e destruidora.

O maior desafio do festival surgiu com Merzbow. Considerado como o artista mais importante e proeminente da vertente noise, o músico natural de Tokyo parecia estar disposto a comprovar tal distinção. Desconcertante, abrasivo e violento, entender todo o conceito à volta de tanto barulho e feedback é uma tarefa labiríntica. Verdade seja dita, assistir a um concerto seu estará englobado numa das experiências mais fora do comum que qualquer pessoa terá a nível musical.

Demente, assustador e implacável, declarou guerra ao som harmonioso. Aliás, guerra ao som em si mesmo e às definições daquilo que poderá ser intitulado como audível. Não será um teste para todos os dias, mas foi um prazer assistir à exploração da imundice sonora. Volume ao máximo, ruído no extremo, pedir a Merzbow melodia e musicalidade é como pedir a um ateu que reze o pai-nosso.

Sair de Merzbow e assistir a um concerto de Carlton Melton é solicitar para não ser surpreendido. De facto, gerou-se a sensação que se podia entrar e sair da sala continuamente, sem que nada de muito relevante tivesse acontecido e de que se estaria no mesmo tom. Explorando o psicadelismo que também se encontra nos seus álbuns, o conceito foi aborrecido e desinteressante. Talvez a culpa tenha sido do japonês e do seu teste aos sentidos, mas é indesmentível que não se encontrou nos Carlton Melton algo mais que homogeneidade e falta de incremento musical.

Os Hype Williams pouco se viam em palco tal era a fusão entre luzes e fumo, mas não foi por isso que deixaram de causar sensação e estranheza. Uma das actuações mais esquisitas e extra-sensoriais do festival em que se apresentou uma cisão muito minimalista de dub. Com as vocalizações a lembrarem uma versão mais monocórdica de Austra ou mesmo Zola Jesus, tudo foi apresentado na sua forma mínima e até claustrofóbica.

Tornou-se por vezes complicado digerir e enquadrar toda a utilização de strob, a par das batidas extremamente incisivas e das vocalizações, em algo concreto. Uma daquelas actuações que fazem pensar e tentar perceber o que se presenciou muitos dias depois do evento.

Os Zeni Geva apresentaram a música com a qual qualquer samurai não deixaria se sentir entusiasmado para a batalha e para a oportunidade de estropiar qualquer guerreiro inimigo. Temas curtos, simples e pesados, os japoneses recuperaram reminiscências saudáveis e o descomprometimento das bandas e do som de garagem.  Se do povo nipónico se espera muitas vezes a calma e a paciência, dos Zeni Geva só se pode aguardar pelo contrário. Misturando de forma curiosa, mas eficaz, elementos que vão desde o death-metal até ao grind, o duo debitou poderosos riffs e batidas de bateria capazes de conquistar qualquer tipo de público.