Um concerto é uma experiência totalitária. Um convénio de subjugação: rendemo-nos, vulnerabilizamo-nos. Do altar, i.e., do palco, propaga-se trigonometricamente um ascendente autocrata, desmultiplicado em decibéis de camisas negras, e nós, inertes grinaldas pelo escuro, calamo-nos por reverência. O vínculo entre opressor e oprimido estabelece-se, numa ciência quási-económica, neste monetarismo concreto: entretenimento. Saímos de casa, dirigimo-nos para um concerto, por recreio. Mas… E quando ele não entretém?

Supersilent não se fracciona em nano-caracteres de lazer. Não distrai, aflige. Não diverte, esmaga. Uma dimensão além-experiência de auteur, que não se comercializa, nem se encosta confortável no protocolo free jazz. Está para lá. Um estádio après-garde de confluências tantas, vertiginoso, que é construído para o exercício in loco e não tanto para ser explicado em magros parágrafos – pense-se em Simon James Phillips no Panteão para uma analogia semelhante.

Os três actores de Supersilent, sem ordem discernível – conhecemos-lhes bem a gula pelo improviso –, desamarraram cem minutos de conflagração urbana: ambiências glandulares que os aproximaram do jazz mortuário, espasmos-pruridos electrónicos (ámen, Deathprod) que morariam folgados nas latejantes cartilagens de quem nós sabemos. Trovões de saliva, magnetismos de ar frio pelo Maria Matos, Ståle Storløkken de pé. Escreveu-se o movimento Lisboa.