O segundo dia do Super Bock Super Rock foi, finalmente, mais enérgico, despertando o Meco para o facto de lá estar um festival – e a polícia para o hábito de ter de atrapalhar a vida de toda a gente. Mas não quero transformar mais um texto numa diatribe sobre o óbvio e sobre a má ocupação do tempo livre dos senhores guardas, nem a forma como os nossos impostos nos acabam a lixar a vida quando não é necessário (mas a sério, porque razão mandam a malta para Sesimbra quando a estrada até dá para uma circulação tranquila?). Vamos, então, falar de música.

Os maus hábitos pecam por isso: por serem hábitos. Se o primeiro dia do festival começou com uma participação portuguesa murcha, os Supernada rapidamente confirmaram que essa parte não iria mudar. Ainda que a primeira música fizesse antever um concerto que distanciasse Manel Cruz e companhia dos Ornatos Violeta, rapidamente o rock, de guitarras ritmadas nas harmonias do baixo, mostrou que tal não iria acontecer. E assim se faz um concerto tudo menos surpreendente, ainda que a dedicação e o talento da banda sejam inegáveis.

Ainda no lusco fusco, os Rapture preparam um “round two” de concertos em festivais deste ano. Se no Primavera Sound foram reis e senhores da primeira noite, o SBSR mostrou ser o waterloo destes conquistadores dos grandes recintos. O jogo de luzes não ofuscou a audiência como no Porto, e os problemas técnicos quebraram totalmente o ritmo frenético da banda, que se deparou com um pára-arranca demasiadas vezes – uma das quais na recta final, com o teclado que serviria para tocar How Deep is Your Lovea não dar qualquer sinal de vida. Quando deu, ficou no ar a sensação de que foi despachar o que custou a sair. Não se dançaria tanto quanto os nova-iorquinos mereciam.

Foram, também, os pormenores técnicos que impediram Hanni El Khatib de encher o peito de rock e suspirá-lo sobre o público. Ou melhor, rock não faltou ao músico de Los Angeles, mas sentiu-se a falta do Roll que os graves do baixo dão aos bons riffs. Parece que El Khatib não esteve nessa aula da cadeira de Rock 101. Felizmente, não faltou àquela em que ensinaram a fazer bons riffs e a ter atitude. Felizmente, também, as lições dessa cadeira seriam repetidas mais tarde e pelas mãos de uma banda portuguesa. Já lá vamos.

Depois de uma espera suave (que para uns deve ter sido atroz), deu-se, finalmente, a estreia do hype dos hypes dos últimos meses em Portugal: Lana Del Rey trouxe o seu belo semblante até ao nosso cantinho e não hesitou em apaixonar-se pela audiência, rendida desde o primeiro acorde de piano e desde a primeira nota da frágil voz da norte-americana. É, de resto, este o ponto forte e fraco da actuação de Elizabeth Grant, que se dá pelo nome artístico de Lana Del Rey. Todos os arranjos da sua música, neste concerto, foram feitos para destacar a sua voz; contudo, este não é um dom que a cantora domine, mostrando-se ainda insegura na sua colocação – ainda que não tenha chegado ao desastre da actuação no Saturday Night Live, nem a nada que se parecesse com isso.

O concerto foi, assim, reflexo da nova estrela da indústria discográfica: uma rapariga em busca da atenção de todos, que o canta nas suas letras, atirando ironicamente que a trocam por vídeo jogos, ou pedindo para ser o hino nacional daquele(a) a quem se dirige; que o demonstrou nas suas primeiras palavras dirigidas à audiência, das quais se destaca de imediato um “I love you.” Lana Foi adorada e recebida como aquilo que a projectam. Talvez não tenha chegado, realmente, a esse nível durante os 45 minutos que actuou e que coroou com o combo Vídeogames eNational Anthem, músicas que fecharam o concerto.

Se Lana Del Rey deixou no éter que a noite era no feminino, a belíssima Nanna Øland Fabricius, que actua sob o nome de palco Oh Land, oficializou a ideia. A dinamarquesa mostrou que o que separa o seu pais do de Björk é apenas uma declaração de independência feita durante o século XX. A voz de Nanna, forte, segura e encantadora, em muito recordava a autora de Post – uma semelhança que só pode cair no goto. Se o aparato com que se rodeia é, quando comparado com a cantora norte-americana que havia pisado o palco principal, aparentemente ridículo (um teclista e um baterista como sidekicks serviram para o grande golpe que protagonizou), a energia que dele resulta é imensurável. Oh Land reuniu em frente ao palco EDP a maior audiência que este vira e conseguiu contaminar os corpos com a sua alegria melodramática e rasgar os sorrisos com a sua simpatia.

Embalados com a energia da nórdica, os Friendly Firesdispararam em todas as direcções pela voz e dança tresloucada do vocalista Ed Macfarlane, que em muito faz lembrar o frontman de!!!. Com Pala ainda a queimar na calha, os britânicos conseguiram o que os Rapture apenas haviam tentado: pôr a audiência do palco principal a dançar. Ou conseguiram-no quase tão bem como M.I.A. o havia de fazer.

Quem também não se coibiu de distribuir uma valente dose de electricidade foram os Wraygunn, uma banda a quem não falta argumentos para injectar adrenalina em quem tem veias para esta circular. É sabido, a começar no rock, a passar pelo punk, pelo blues, pelo soul, pelo gospel, no cardápio da banda de Coimbra figura tudo o que possa sair da guitarra de Paulo Furtado e das vozes de Selma e Raquel. Com o novo L’Art Brut como estandarte da sua actuação, os Wraygunn não deixaram nenhum clássico de fora e levantaram (ainda mais) pó.

À hora marcada, subiria ao palco uma DJ, dando ideia de que tudo ia acontecer segundo o que havia sido planeado. Assim não foi. A DJ que acompanha M.I.A. antecipou-se a toda a gente e mostrou os seus parcos dotes, à moda de um aquecimento, enquanto o palco era literalmente preenchido com palha para receber a polémica cantora britânica. Ora, se para a TV a Maya é polémica, no palco isso é algo totalmente secundário. É uma entertainer e quer pôr tudo a mexer, quer isso represente que tenha de descer do palco, ou de trazer alguém do público para cima dele (coisas que acabaria por fazer, realmente). Musicalmente, pouco tem que se lhe diga: é a batida para substituir o ritmo cardíaco e a melodia para haver uma desculpa para dançar; são os gritos para incentivar o pagode, e os movimentos corporais em palco para contagiar. O resultado estava à vista de quem, como eu, já não tinha pernas para sacar de uns dance moves from hell.

Fechariam a noite os Horrors. Desde a última passagem por Portugal, que aconteceu há três anos em Paredes de Coura, a banda britânica mostrou-se mais enérgica (e o guitarrista deixou crescer o cabelo, contabilizando-se duas mudanças), mas fora isso e, claro, as novas músicas, do álbum Skying, tudo estava na mesma. Com o ambiente iluminado com o negrume gótico em os ingleses, através de nomes como Bauhaus e The Cure, sempre foram especialistas, a música dos Horrors não faria mais do repetir mais ou menos bem algumas fórmulas tidas como certas. Não que estejam esgotadas, mas nem todos os ases ganham jogos. Confirmou-se aquilo que já se sabia: o dia 2 do Super Bock Super Rock foi das mulheres, foi da devoção perante Lana Del Rey, foi da farra multicultural de M.I.A. e, principalmente, foi de Oh Land. Oh, a bela Oh Land!