E ao segundo dia, ainda mais pó, ainda algum trânsito (mais para o fim do dia, parece), e concertos infinitamente melhores. Bem, pelo menos dois deles, que fizeram valer logo o festival.

Noiserv foi uma aposta curiosa e, talvez, inesperada. Se é verdade que actualmente David Santos está no seu auge, com uma popularidade enorme, também é verdade que o seu estilo íntimo e calmo, à base de loops e uma voz suave, podia não ter resultado bem num palco daquele tamanho, perante um público como aquele, durante o dia. Foi a oitava vez que vi Noiserv ao vivo e, mesmo tendo sido das piores (resulta melhor num espaço fechado), o concerto em si resultou francamente bem, com o músico a demonstrar saber adaptar-se bem aos diferentes ambientes em que toca. Tinha dois LEDs ao seu lado, onde a sua prima, Diana Mascarenhas, ia desenhando aqueles desenhos que já todos conhecemos, e o som estava bom. Mas foi o público, numeroso e maioritariamente desconhecedor do projecto, calado e respeitoso, ficou em silêncio ao devoto de todas as músicas, batendo palmas em algumas delas (“Obrigado pelas palmas, ficou no microfone e foi um efeito porreiro”, diz ele). Engana-se uma vez ou outra, e Bontempi, a fechar, não soa tão boa como já a ouvimos antes, mas foi mais um belo concerto de um músico que está em processo de exponencial crescimento. Merecido, diga-se.

Rodrigo Leão não foi feito para tocar em festivais. Público apático, parte dele sentado, durante um concerto bom, mas que falhou em conquistar as numerosas pessoas que queriam cantar e bater o pé, e não tanto ouvir peças instrumentais em que violinos desempenham um papel importante. O próprio alinhamento mostrou a tentativa de fazer algo mais “mexido”, mas, infelizmente, nem mesmo canções como A Corda ou a lindíssima Solitude conseguiram convencer um público mais virado para a Sónia Tavares, a Beth Gibbons e o Win Butler. A minha t-shirt dos Arcade Fire que o diga. Quando o concerto termina, já se vê da frente um oceano de gente que vai desde a grade até onde a vista alcança. Hoje o dia está esgotado, e nota-se.

Foi com os Portishead que começámos a perdoar tudo. O pó, os maus acessos, o recinto cheio de areia… Tudo deixa de interessar perante um concerto incrível como aquele que a banda de Bristol deu. Um momento de pura transcendência, num espectáculo negro e denso, por vezes emotivo e quase sempre arrepiante (adoro-te Beth Gibbons, mas assustas-me). As projecções vídeo atrás e a iluminação ajudavam ainda mais a criar um ambiente propício às lágrimas ou aos arrepios na espinha. A devoção do público foi sentida e, acima de tudo, ouvida. Aliás, ouvida demasiado. Se houve algo que minou o concerto (que, pelo menos lá à frente, esteve sempre com um som perfeito) foi o público. Portishead não é música para bater palmas ou gritar a meio de canções, e muito menos para gritar “BETH, ÉS TÃO LINDA!”, como fazia insistentemente uma rapariga do Porto perto de mim. É música para ouvir, apreciar e sentir, ou de olhos fechados ou com estes postos em cima de Gibbons, que canta e move-se como se num tímido transe estivesse, numa presença em palco única, agradecendo com um sorriso e rebentando no final, quando vai ao público.. Bastou o início com Silence para o público se render, num concerto consistentemente magnífico do primeiro ao último instante. Músicos espectaculares, sempre sem falhas, que fazem música como mais ninguém. Trip-hop transcendente e emocional, que teve em Machine Gun e, talvez, Roads, os momentos mais altos. Um dos concertos do ano, sem dúvida inesquecível. Mas o melhor ainda estava para vir.

Se pensarmos bem, é francamente espantoso ver onde chegaram os Arcade Fire em apenas sete anos. São headliners em alguns dos maiores festivais do mundo, esgotam salas onde quer que apareçam, ganham o Grammy para melhor disco do ano… e, claro, mudaram a vida de muito boa gente com Funeral, um daqueles discos que ficam marcados a ferro na vida tanto da banda quanto dos ouvintes. Nesta noite, o público estava, acima de tudo, lá por eles. Era por eles que iam ao Atlântico em Novembro, no concerto que foi cancelado, e foi por eles que muitos esgotaram este segundo dia, e se deslocaram de propósito ao deserto do Saara… digo, ao Meco, para assistir àquela que é uma das bandas das suas vidas. E ao vivo, a banda de Win Buttler e companhia confirmou tudo e muito mais. Sim, é inevitável: são uma das maiores bandas do mundo (raios, talvez a maior). Naquele que foi, como já ouvi mais de dez pessoas dizer depois do espectáculo, “o concerto de uma vida”, os Arcade Fire demonstraram em palco a pura genialidade de uma banda que faz o que quer porque gosta, não quer ser nem é nenhuma rockstar (Buttler é uma personagem carismática, tímida e desengonçada), e faz música poderosa e emotiva, tão sincera em disco quanto a forma como é tocada ao vivo.

O som, ao que parece, estava péssimo noutros locais do recinto, mas lá à frente (sim, eu era daqueles tipos que estavam com uma t-shirt de Arcade Fire na quarta ou quinta fila, na grade central, quase em lágrimas durante a maior parte do concerto) estava surpreendentemente bom (como esteve, aliás, toda a tarde). Todas as vozes se ouviam muito bem, tal como todos os instrumentos, e só os violinos ficavam por vezes algo apagados. Tecnicamente, tudo estava exemplar (pelo menos ali…). E depois havia, claro, o público. É raro ver e ouvir um público assim, tão numeroso e todo ele tão sedento, desesperado por uma banda (às vezes até cantavam o refrão da música quando esta ainda ia no início…). Os pés não estiveram muito no chão, os olhos raramente estiveram secos (era de esperar), e todas as canções foram cantadas do início ao fim. Foi curioso ver tanta gente a cantar canções como The Suburbs ou We Used to Wait, saídas do último disco, da mesma forma como cantaram hinos como Rebellion (Lies) ou, claro, a inevitável Wake Up.

Raramente se vê um público tão unido entre si, numa experiência que foi, ao final de contas, quase religiosa. Bastou aquele início com Ready to Start (que bem pensado, sim senhor) para tudo explodir e o público estar de imediato aos pés da banda que, diga-se, estava também aos pés do público. Win entra em palco e ao início nota-se que está cansado, mas rapidamente isso desaparece e o vemos a subir por colunas, a aproximar-se à beira do palco para tocar, e sempre com um sorriso do tamanho do mundo. “Vocês devem ter alguma magia especial porque estamos em digressão há cinco semanas sem fim e hoje parece que estamos no primeiro concerto”, diz o vocalista a certa altura. E nós acreditamos.

Toda a banda se empenha ao máximo (todos os oito membros), e é de ficar com o queixo no chão a forma como funcionam em palco. Multi-instrumentalistas natos, vão alternando regularmente entre instrumentos. Win toca guitarra, baixo, e piano, Régine tanto pega no piano como na bateria (bateria a sério, nada daquelas com só dois pratos ou assim), e todos eles vão mudando entre si, certificando-se de que, ao vivo, as canções complexas não percam ao vivo nenhum do poder que possuem em disco; aliás, conseguem ganhar mais poder ainda. Transpiram todos energia e pura felicidade em fazer o que fazem, em particular Richard Perry e William Butler, que à segunda música já saltam pelo palco com um tambor na mão, e que antes do concerto começar, enquanto tudo era montado, encetam uma hilariante perseguição pelo palco, em que Perry foge de William, armado com uma faca.

O alinhamento é inteligente e audaz, concentrando-se maioritariamente em Funeral (claro) e no mais recente The Suburbs, que mostra ao vivo ser, de facto, um grande disco. Month of May foi a apoteose, The Suburbs foi um momento de uma beleza enorme, algo que Sprawl II (Mountains Behind Mountains) foi ainda mais, e We Used to WaitRococo resultam muito, muito melhor ao vivo. Momentos emotivos e grandiosos, mas os temas antigos foram-no ainda mais. O que dizer de Laika (lágrimas, lágrimas), Power Out ou Tunnels? Espantosas, claro, mas os dois momentos da noite (foram todos espectaculares, mas há que arranjar um ou dois a que dar destaque) vieram ambos de FuneralRebellion (Lies), a encerrar o corpo principal do concerto, e Wake Up, a abrir o encore. Os temas de Neon Bible também brilharam, claro: Intervention foi também um dos momentos mais emotivos, e No Cars Go e Keep the Car Running foram dos mais épicos. O final, que chegou pela voz de Régine, com Sprawl II, foi um dos momentos puramente mais belos que muitos haverão  visto em concerto (já mencionei que havia gente a chorar?).

Concerto de uma vida? Sem sombra de dúvida. Soa a exagero? Acredito que sim, mas quem lá esteve (enfim, num sítio onde o som estivesse bom…), é capaz de concordar. Emocionalmente poderosíssimo, e com momentos musicalmente apoteóticos (meu Deus, a Power Out ao vivo…), foi um concerto sem falhas que ficou entranhado bem cá fundo. E foi, também, uma experiência colectiva, onde milhares ali estiveram a partilhar um momento inesquecível. Os Arcade Fire movem e comovem massas, e em palco intensificam ainda mais essa pura devoção do público, dando um concerto que, simplesmente, ultrapassa as já muito, muito altas expectativas, e que mostra uma banda que está ali para fazer o que gosta; e para fazer, também, com que outros gostem. Estiveram ali tanto por nós como estivemos por eles (soou honesto, quando Win disse logo ao início que esperaram muito tempo para tocar cá, mencionando o que sucedeu no ano passado). No final, vi gente abraçada a chorar. Nos bastidores, acredito que se viu o mesmo. Os Arcade Fire são, de facto, uma das maiores bandas do mundo. E os concertos que dão, ao que parece, também o são. Quem lá esteve, nunca se há-de esquecer e ainda deve estar a pensar naquela noite mesmo agora. Não gosto de usar expressões como “Melhor concerto do ano que ainda nem chegou ao fim” ou “Talvez o melhor concerto que vi até hoje”. Mas, mas…

Nota de Redacção: Lamentavelmente, por restrições impostas pela organização, o Ponto Alternativo não obteve autorização para fotografar o concerto de Arcade Fire.