Lá andam eles entre nós, pelas plateias dos quatro palcos, às vezes sozinhos, outras em grupo – fazendo disparar o nosso constrangimento. São jovens, sorriem e pedem licença. Têm sacos nas mãos e vestem coletes florescentes que contrastam gritantemente com a cor da sua pele – com a de todos eles – o que é mais gritante ainda. Apanham o lixo de plástico deixado pela restante juventude. E depois vemos as louraças lixeiras, de fato protector, vassouras e luvas, pavoneando-se pelo recinto fingindo que o seu trabalho é esse.

Vi um desses rapazes parar uns dois minutos perante Benjamin Clementine, acabado de subir ao Palco EDP, depois de apanhar uns sete copos de plástico com a marca do festival, perto das grades. Será que conhece o artista? Ou terá sido o facto de um homem vestido de negro com um enorme afro electrificado, também ele jovem, alto, digno, ter subido ao palco causando uma chuva de ovações ao seu redor? Saberá que essa pessoa, que canta com uma voz decidida e certeira, há dois anos atrás vagabundeava nas ruas de Londres à procura de mais uma refeição?

Ainda existem histórias inspiradoras no mundo da música, Benjamin Clementine é personagem principal de uma delas. Descoberto a cantar no metro da capital inglesa, hoje canta para multidões talvez menores, mas que ficam até ao final, querem mais e pagam para isso, porque ouviram a sua voz, porque o conhecem, a si e à sua história. Dono de uma voz difícil de qualificar, suave mas rígida, que ganha magia na interpretação teatral, por vezes quase falada – um monólogo, em que as letras refletem invariavelmente episódios contados na primeira pessoa. Com um certo toque de desprezo, na voz e no olhar, que nos fascina e desarma. Os seus olhos fixam-nos ostensivamente, os dedos tocam esguios nas teclas do piano, a voz atinge-nos ao mesmo tempo que vemos as veias da sua testa e pescoço quase explodirem

Não será difícil qualificar o que fez o francês de origem ganesa, feito artista em Londres, como o melhor momento, não do dia, mas de toda a edição desde SBSR. Nem o público o defraudou, comparecendo largamente e permanecendo silencioso quando cantava apenas com o piano a acompanhá-lo. A expressão nas suas caras, no final, não engana: o que acabou de acontecer foi especial, bafejado pelo poder do real.

Continuámos por ali, vendo um tipo de quase dois metros em palco. Adam Bainbridge sabe animar hostes, tem mais do que a altura de um maestro e é dotado de sensibilidade maior para pôr uns milhares de pessoas aos pulos. A sua pop é cuidada e moderna, tem qualidade nos instrumentais, em que ritmos electrónicos minimalistas encontram-se com composições cativantes, passando por uma abordagem que deve às paragens lo-fi e downtempo a sua singularidade. Contudo, os The Drums estão quase a subir ao Palco Super Bock. Fomos.

São nova-iorquinos mas quase parecem oriundos da Grã-Bretanha, a contar pela sonoridade indie rock, apesar de não purista. Ah sim: ok, eles são de Brooklyn. Há uma aura new wave nas suas composições, com diversos elementos electrónicos e uma aposta forte num espetáculo visual e em ambientes melancólicos. Apresentam “Ensyclopedia”, editado em 2014, intervalando-o com êxitos do seu homónimo de estreia, de 2010, que terminou o encore com “Down By The Water”, e de “Portamento”, lançado um ano depois. Muitas pessoas para vê-los: bastaria adicionar duas ou três mãozadas de gigante e ficaríamos com a moldura humana que assistia a Sting. E, daí, surge uma pergunta: estará mais gente neste segundo dia de festival ou simplesmente terão chegado mais cedo? – atentando que uma grande percentagem do público de ontem ter marcado presença somente motivada pelo ex-vocalista dos The Police, que actuou em último lugar e que, naturalmente, trouxe um público que não anda de um lado para o outro uma tarde inteira.

A preferência britânica no palco principal do SBSR, assim como em todos os outros, é este ano mais que evidente, à semelhança do que acontece há anos no cartaz do NOS Alive. Daqui a umas horas os Blur serão disso exemplo máximo. Ontem foi o ex-Oasis Noel Gallagher e o slogan planetário que é Sting, amanha serão osFranz Ferdinand & Sparks e Florance & The Machine. O porquê é também ele de perspicácia limitada – será que os tuk-tuk vêm até ao Parque das Nações?

Saímos do MEO Arena a tempo de ver mais uma banda da terra de sua majestade irromper em palco. Muito público aguardava a chegada das Savages. Muito, mesmo, e outro punhado chegava connosco. Candidatas do espetáculo da noite, não houve alma que lhes ficasse indiferente. Muito barulho fizeram ao descarregar o seu ainda único disco, “Silence Yourself”, de 2013. Faixas como “Here I Am”, “City’s Full”, “She Will” ou “Fuckers” foram as que mais alto falaram, em conformidade com o estilo noisy, a atitude irreverente e áspera do punk, que sonoramente divaga na qualidade de post. E que ainda encontra influência no Bip Bop Bipdeixado por Pretty Boy Don Covay em 1957, levado talvez mais além por Barrence Whitfield & The Savages nos setentas – e talvez aqui já faça mais sentido.

Os únicos portugueses a pisar o Palco Super Bock, exceptuando os do staff do festival e afins, encontraram uma magra audiência no início da sua actuação. Dois colossos da nossa praça: Sérgio Godinho e Jorge Palma, frente a frente ao piano, ou lado a lado com uma guitarra acústica, protegidos por uma quase orquestra de músicos. Foram maestros, foram também eles estrelas nesta noite, foram o que são: exímios compositores e letristas, músicos e amigos. E, se com ironia “Deixa-me Rir” poder-se-ia aplicar à falta de comparência do princípio, um “Brilhozinho Nos Olhos” ficou em ambos ao ver que a plateia foi gradualmente crescendo até à parte final do concerto.

Quem se segue no principal palco? Os belgas dEUS. Amantes do nosso país, mulheres, bons vinhos, drogas caras, ingredientes do seu rock’n’roll viril com progressismos de jazz e folk, mas também do seu esoterismo – que começa no nome que proclamam, passa por lugares recônditos da Antuérpia e confunde-se com a personalidade de Tom Barman. Lá foi ele, todo decidido, após entrar a restante banda, onde o teclista Klaas Janzoons é único membro permanente além do vocalista, urrar ao microfone para dar início a “Via” – “boa noite também para ti!”, ouve-se logo ali ao lado. De rajada, “The Arquitecth”, o peito sai ainda mais para fora da camisa aberta quase até à barriga, o público reage – dEUS é uma banda de seguidores fieis, muita gente canta a letra de fio a pavio – é uma música cheia de bazófia e auto-determinação para quem a quiser apanhar, que som! A actuação foi, de resto, quase sempre em escala ascendente, com uma excepção ténue para “If Don’t Get What You Want”. Sem encore e a terminar com o crescendo de “Bad Timming”, seguido de “Suds & Soda”, clássico do seu álbum de estreia “Worst Case Cenario”, editado em 1994.

Ninguém ou, mais precisamente, ninguém tendo em conta o número de pessoas presente, saiu do MEO Arena – é mais que palpável que o regresso de Daman Albarn e companhia à capital é o que mais pessoas ansiaram durante todo o dia, e quem sabe há mais quanto tempo. Relativamente à dúvida de cima: parece-nos que estariam tantas pessoas em Blur como em Sting, com a diferença a residir no número de pessoas que hoje está na plateia em pé e que ontem estaria sentada nas bancadas.

Blur foi o momento do dia, não restaram dúvidas, se é que alguém as teve sequer antes de entrarem em palco, decorado a cones de gelado gigantes. Lá vem ele, rufião bobo da corte, dente de ouro, barriga de cerveja a querer resvalar entre as calças e a t-shirt – garrafa de água lançada para a frontline, bem como para as obejctivas dos fotógrafos que não conhecem a peça – pouco depois também já fazia stagedive. Braços ao alto, gesticulador, boca bem aberta, para um setlist extenso – mas bem longe do seu devaneio de Roskilde, na Dinamarca, aquelas cinco horas aconteceram num espaço aberto. À hora e meia de concerto notavam-se as grossas gotas de suor e o ar de cansaço do vocalista da já clássica banda inglesa, perante a opressão que é um espaço fechado para quem como ele se mexe. Inúmeros êxitos, recebidos com entusiasmo de quem assiste a um concerto, em muitos casos bastante visíveis, de uma vida – como “Coffe & TV”, “Thought I Was A Spaceman”, “Tender” ou “Gilrs And Boys” já no encore – mas nenhum, nem por sombras, teve metade do entusiasmo dado à sobejamente conhecida “Song 2”. Pessoas que há muito estavam encostadas ou sentadas a um canto, algumas mesmo a dormir, correram para a confusão. O concerto terminou como começou. Em festa, com “The Universal”, repleta de investidas de trompete e braços no ar com flashlights arco-íris.

E para onde vão uns milhares de pessoas que acabaram de se divertir à grande? Para onde se perspective mais diversão, claro. A Sala Tejo estava a abarrotar e ao rubro com os três homens em cima do palco, que vão pincelando o som mecânico com saxofone, guitarra e baixo. Gramatik ao vivo, em contexto after hours, torna-se mais electrónico. Batidas aceleradas, mais pumpumpum que o habitual no seu som, que passa por rap instrumental ou momentos típicos de chill out. Não que não o tenham mostrado, como com uma passagem de “Tearz” de Wu Tang Clan ou “Hip Hop” deDead Prez, mas o registo foi na maioria do set muito mais mexido. Tudo dançava, bebia, fumava; muitas gotas de cerveja nos calcanhares, muitas nuvens de fumo e, de repente, quase tropeço num rapaz anão, enquanto ao meu lado ex-Morangos tiram selfiescom aqueles sorrisos de manequim de montra. Dali a pouco tempo partia o último autocarro gratuito da Gare do Oriente – fomos antes de acabar o concerto de modo a evitar a procissão.

«No tempo do Salazar isto ia tudo preso!», disse um senhor no interior do 210 da rede da madrugada da Carris. Antes, alguns jovens tiveram de correr atrás do autocarro que, visivelmente, não queria parar ali e apanhar aquela maralha sonâmbula e meio desgrenhada. Parou só depois de uns insistentes e desesperados palmadões na porta. «É entrar e fechar a porta, vamos embora, caralho!». Fez o mesmo senhor, perante juventude aparentemente indecisa – entravam, saiam, e nisto se passaram uns minutos – «Ah não apanhas o comboio não»”, disse outro senhor ao primeiro. O transporte lá arrancou, aos trambolhões por uma Lisboa adormecida, passando pelos Olivais, Xabregas e Santa Apolónia. Última paragem no Cais do Sodré e o senhor lá estava, tinha uma altura que a cadeira e o vozeirão não mostraram, impecavelmente penteado, calça Giovanni Galli contrafeita, preparado para ajudar a erguer mais uma construção, à saída, apostos, e, mal as portas se abriram, lá foi ele a correr para apanhar o comboio.