“Batata frita Pala-Pala é uma tara de sabor”, escutamos mal os nossos ténis se reencontram com o pó do Super Bock. No relaxe de quem nunca quis, nem quererá, provar nada a alguém, os Tara Perdida chutaram, sobre uma das maiores enchentes que o Palco EDP conheceu, os seus arraigados pedaços de ébrio punk. Baque suficiente para aguçar os preambulares choques corporais, pressagiando que o derradeiro dia de festival seria um belo flashback dos tempos em que a guitarra abespinhada era figura maior dos Verões musicais.

Abaixo, no Antena3@Meco, as dúvidas acerca de o 20 de Julho ter sido o dia com maior afluência levaram uma chapadinha fatal. Os The Quartet of Woah! encheram o terceiro palanque com a justiça de quem anda a cevar o rock português com a impoluta virtuose dos 70s. Ultrabomb é super, a guitarra fuzzy é algodão sincero e todas as palmas, divididas em contundentes salvas, foram justas para uma banda que genuinamente se diverte a cada acorde. Definitivamente mais cliché – o discurso do metal nacional já cansa –, o hard assinado pelos Miss Lava ofusca-se na repetição. De stoner não há assim tanto e o toque bluesy perde-se no atabalhoamento acústico que o palco principal lhes ofereceu. Trivial abertura de uma banda que não renegou ser parte do público e que, através de Black Rainbow ou Yesterday’s Gone, quis sacá-lo, sem sucesso, da letargia.

Após novo considerável atraso no Antena3@Meco, Sam Alone & The Gravediggers trouxeram folk de traço hillbilly country, oxigenando, por todos os poros, orgulho nas raízes portuguesas. Encarnados candeeiros adornaram o palco exíguo, intimista ornamente para um concerto quem, também ele, conquistou pela franqueza. À semelhança de quando vocifera nos Devil In Me, Polijamais deixa cair uma oportunidade discursiva e, por entre Youth In The Dark ou Mother de Danzig, o algarvio arrancou vários aplausos e copos de cerveja no ar erguidos. Rock despreocupado, de branca tonalidade, que tão bem contrasta com as noitadas em queOn My Own é levada às garagens nacionais. Simultaneamente, os Ash lá iam tentando recuperar a firmeza de quem foi grande há coisa de quinze anos. Fastio profundo, estendido por sessenta minutos em que Tim Wheeler se fartou de desafinar, provando que os norte-irlandeses foram subjugados à selecção natural do tempo. Imortalidade não é com eles. Acontece a (quase) todos.

Gary Clark Jr. inala BB King, processa Jimi Hendrix e exala Louisiana, Mississippi, Alabama e Texas (de onde é originário). De blues na ponta dos dedos, vagarosamente espalhado sobre estruturas de peito aberto para o solo descontraído, há no norte-americano aquela lisura de quem sabe que não é preciso reinventar a roda – chega o conforto da sua franca guitarra, estreada o ano passado em Blak and Blu e popularizada com Don’t Owe You A Thang. Longe de electrizante (nem é esse o propósito do homem de Austin), o concerto desfilou nos carris da amenidade, afável iguaria para o estrondo que se lhe seguiria.

Não persistem incertezas sobre Michael Jackson ser referência-mestra dos !!!. Nem é preciso olhar para o óbvio, que é o título do seu novo álbum: THR!!!LER – bastaria aproximarmo-nos do Palco EDP e sentir as vibrações daquele baixo funky, que deve tanto aos maiores discos do Rei, para sentirmos que os chk chk chk vivem do abanar de anca. Nic Offer, que nunca abandona o calçonito minguado, permanece infatigável: dança, pula, visita as primeiras filas e não dá cavaco para o facto de a plateia se movimentar em larga escala para o palco principal. Festim que não merecia chocar com a maior atracção do festival

“Estás preparado?” “Estou!”, pergunta e resposta entre amigos que há muito aguardavam por um dos remanescentes baluartes do rock além underground. Ansiedade natural. Não só a singularidade de momentos como este é cada vez maior em festivais do género, como os Queens of the Stone Age souberam proteger-se do “outra vez arroz”, máxima aplicada a quem por cá parece ter comprado apartamento. Oito anos após Paredes de Coura, o Meco escutou a inicial You Think I Ain’t Worth A Dollar, But I Feel Like A Millionaire como o derradeiro salmo redemptório de quem já estava farto de concertos assim-assim. Há na banda de Josh Homme a verticalidade dos maiores: quem existe, acima de qualquer parafernália acessória, é o riff. No One Knows, exemplo da tal imortalidade acima referida, foi prontamente arremessada em segundo lugar – o início do concerto foi fiel ao início de Songs For The Deaf – e dela vociferou-se, ao máximo decibel, não a letra, mas o… Riff. Pasme-se, hã? Inegavelmente aturdido pela reacção, o homem que definiu o desert rock ainda na adolescência, quando se bamboleava nos Kyuss ao sabor de One Inch Man, levou a mão ao coração e percebeu que Portugal, por uma noite, lhe iria exigir tudo.

De acorde embrenhado na saliva e na garganta rasgada pela poeira, o coro de Burn The Witch terá feito o que as cagarras açorianas não conseguiram: incomodar o Presidente. Hipérbole, claro, mas em nenhuma outra ocasião o Super Bock Super Bock modo 2013 presenteou tal uníssono, que até nas novinhas My God Is The Sun ou The Vampyre of Time and Memory (cantada ao piano e alumiada pelo isqueiro) quis fazer uma rubricazinha.Homme, líder suportado por uma bancada onde Dean Fertita é mais chefe do que aquilo que à primeira mirada poderíamos supor (o homem divide-se por guitarra, voz, teclados e sabe-se lá mais o quê), não teve medo de cair em cima de …Like Clockwork. Deu-nos cinco temas novos, replicados ora na exactidão, ora na narcótica jam session de I Appear Missing, melhor malha do novo álbum, quem em em palco é sorvida até à última gota de feedback

É sob a idólatra amálgama feita do groove de Sick, Sick, Sick ou deLittle Sister e do blues cheio de sexyness de Make It Wit Chu ouSmooth Sailing que o concerto dos Queens of the Stone Agevagueia. A multidão – trinta mil cabeças – tanto se esborracha quando Jon Theodore espanca o drumkit, como se abraça, em pulcra comunhão, quando é altura de revisitar The Lost Art of Keeping A Secret. Também de Rated R, I Think I Lost My Headache cabalmente nos prova que Homme faz da psicadelia eterna companheira de estrada e de vida: quase dez minutos de pára-arranca, atados a um maquiavélico riff testado em todas as velocidades permitidas pelo código do rock. O pródigo sol vermelho, não no céu, mas no ecrã gigante, recordou os tempos das desert sessions regadas a nicotina, valium, vicodin, marijuana, álcool e cocaína.

É ela, Feel Good Hit of Summer, que inaugura o espontâneo circle pit – como se houvesse, sequer, outra forma de reagir àquela reverberação de Michael Shuman, escrita inicialmente pelo Nick Oliveri. Lenço na cara, que a areia erguida é muita, e Go With The Flow faz parte da carruagem seguinte. Vamos com ela, empurrados pela maré de gente, e só recuperamos fôlego quandoJosh Homme pede que lhe acendam o cigarro final: “Portugal, nós vamos dar-vos tudo, agora”. Theodore, animalesco, com um tacto que Joey Castillo nunca evidenciou, não nos fez ter saudades de Grohl e só Mark Lanegan poderia ter melhorado um quadro já de si perfeito. Que tiro.

Rock puro, rock duro, sem merdas. Quantos mais concertos destes, em festivais mainstream, iremos testemunhar? Fica a questão.