“Não gosto muito destas guitarradas do rock”, proferia alguém, anteontem, enquanto Johnny Marr vasculhava no sótão dos The Smiths. Curioso, dado o nome do festival. Precisamente para infortúnio daqueles que desprezam a bruteza das seis cordas, os Black Rebel Motorcycle Club saíram da toca, beijaram o sol e mostraram que nem só de acordes minguados se compõe o cartaz. Sob desígnio do garage encardido, sempre irrigado pelo blues sulista (aquela harmónica…), houve em Peter Hayes e Robert Levon Been coração suficiente para abrir o palco principal e sacar, na robustez, Beat The Devil’s Tattoo e Conscience Killer. DoSpecter At The Feast, o último, os californianos rebuscaram três temas e subtilmente revelaram que ainda há nicotina quanto baste para flamejar na guitarra de Hayes, perenalmente lânguida e soturnamente ácida. Bonito entardecer trauteado a rock sem aditivos e consumado em Spread Your Love.

Nas franjas da principal multidão, os Octa Push iam empanturrando a tenda Antena3@Meco de oscilações tropicais, labirínticas vozes e incursões a África. Pulsações electrónicas de quem pisca o olho à trip mental, impecavelmente fortalecidas por uma bateria que não concede autorização a meiguices. “Estivemos com o Mike Patton no backstage, ele já vem aí para cantar uma malha”, galhofaram os portugueses que, diga-se, não necessitam de o vocalista norte-americano para coisa alguma. O que têm chega bem para sacolejar qualquer saleta, mesmo a uma hora em que o sol está a vestir o pijama e o álcool não abunda nos túneis sanguíneos. Pouco depois, outro lusitano brilharete neste palco:Samuel Úria obrigou à contundência nos aplausos, provando que o Grande Medo do Pequeno Mundo é aposta ganha.

À descida para o anfiteatro principal, apercebemo-nos de que, salvo pequena minoria, o interesse em Tomahawk é acanhado. Ninguém se esmaga por um melhor lugar, ninguém berra em desvario quando o malvado groove de Flashback se instala. Solto dos ganchos orelhudos de Faith No More – e de toda aquela stage persona que obriga à colorida fatiota – Mike Patton tem neste projecto salvo-conduto para os grunhidos maquinais e para uma descida às suas próprias entranhas. Não há singles sequestrados aos Commodores; há, pelo contrário, fome pelo baixo encorpado das malhonas de Mit Gas (Trevor Dunn, outro ex-membro dos Mr. Bungle, permanece um músico admirável) e apetite pelo vácuo experimental arremessado em Point and Click. Sem espanto, os Tomahawk não encontraram reflexo na plateia: macambúzia, entregue ao aborrecimento, por ela Patton tentou puxar com o seu clássico português macarrónico. Sem sucesso. Não houve “porra, caralho!” que resgatasse o SBSR do sonambulismo e quem já fincava pé para The Killers não se deixou encantar pelos desafios de Capt. Midnight ou 101 North. Alheados do restante cartaz, os norte-americanos, exímios em transportar as tétricas atmosferas de estúdio para palco, lá despertaram um tímido coro com God Hates A Coward e um mini-moshpit à responsabilidade de Laredo, mas nem elas evitaram que Patton provocasse a primeira fila: “tu, aí, eu vi-te a bocejar”. O “fado americano” (o country, portanto) encerrou a actuação, numa bela versão de Just One More de George Jones. Uma hora de concerto que (re)comprovou o óbvio: já não há espaço, nos maiores festivais portugueses, para ultrapassar o rock mastigado e comercial.

No secundário, os Clã retornaram à sua costumária pele, levando os casais de namorados ao abracinho fofo em Problema de Expressão. Sob aval da lua cheia, os portugueses brindaram quem recusou os Kaiser Chiefs com faixas do seu próximo disco – destacou-se A Paz Não Te Cai Bem e Apolo em Ascensão, onde Samuel Úria fez uma aparição especial. GTI, agarrada àquele brilhantismo literário de Carlos Tê, chutou-nos para o passado, mas, face ao nervo e à atitude que Manuela Azevedo ainda brande, os Clã têm o amanhã garantido.

Aos Kaiser Chiefs já lhes conhecemos todos os truques – quem se surpreende com a subida de Ricky Wilson a um dos palanques da Super Bock, decerto não se recordará das cervejas por ele tiradas no Alive, dos sprints à Usain Bolt no Rock In Rio ou do seu pé partido em Paredes de Coura. Em mais uma visita a Portugal – são tantas que já lhes perdemos a conta –, os britânicos facultaram nova dose do seu festivo indie rock que, musicalmente, vai perdendo fulgor a cada ano. Os temas que aí vêm no próximo disco balançam no tédio e o vocalista percebe melhor do que ninguém que as suas macacadas são necessárias para compensar uns Kaiser Chiefs que não surpreendem. Ruby desperta salto sincronizado e I Predict A Riot leva as cordas vocais a chocar com a incessante humidade oceânica, mas, além disso, a banda de Leeds parece esgotada na sua própria fórmula.

Desde Day & Age, nascido em 2008, os The Killers saltaram para aquele lote de grupos que se dão ao luxo de transportar intricados jogos cénicos, fogo-de-artifício e chuvadas de confettis. É tudo por demais bonito para a objectiva dos telemóveis de geração e, nesta segunda década do séc. XX, a banda de Brandon Flowers é a combinação ideal entre o conteúdo para a wall do facebook e o dormente rock FM. Somebody Told Me desperta, ao sabor de single exaurido pelas rádios, o público nacional – o mesmo que mostra alguma indiferença ante Shadowplay, cover dos Joy Division. O factor entretenimento nos The Killers é evidente e, quando o frontman pergunta ao público, antes da derradeira Mr. Brightside, o que é que o Super Bock Super Rock quer mais, percebemos que aquela é uma questão sincera: após o ribombar da pirotecnia e o fulgor colectivo de Human, os norte-americanos sentem autoridade suficiente para auto-reconhecerem que já ofereceram quanto baste. É este o tal divertimento de que falavaBrandon Flowers quando criticou os Nirvana por roubarem a alegria ao rock? É capaz, sim. Há vinte anos certamente não chegaria para aquecer os ânimos. Agora, é suficiente para o público falar em “enorme concerto”. Tudo certo.