As insignes lufadas de poeira soltaram a preguiça e deixaram-se ficar quietas – quiçá responsabilidade do frouxo vento, quiçá falta de um povaréu à séria. Owen Pallett, após moroso «soundcheck», enfrentou uma plateia anorética: pouca gente, mais entretida na tagarela festivaleira do que nas reflexivas texturas do canadiano. Sem receio, o autor de Has A Good Home (daqui a pouco o disco completa dez anos) tratou no imediato de amestrar o sempre teimoso violino às suas ordens multíplices, devidamente arrimadas num manancial de pedais. O convénio estabelecido entre o classicismo das quatro cordas e a tecnologia que lhe criva loops e contra-loops mantém-se o trunfo-mor do senhor de Toronto, multi-instrumentalista que tão bem se entende com a banda que o coadjuva. Foi belo. Intimistas envolventes, de tecto fechado, ser-lhe-iam mais favoráveis, claro. O palco secundário, de barriga ao léu, roubou-lhe ambiente.

Ano de estreias para as Anarchicks: lançaram-se às feras comReally, debutante álbum, e cortaram a fitinha do palanque número um do Super Bock Super Rock 2013. Jamais se esquecerão, certamente. Já o público, esse, dificilmente terá gravado as quatro figuras femininas no seu córtex cerebral. Rock franzino, a pedinchar pelo vigor de uma segunda guitarra. É fácil estampar-lhes o chavão “grrrl”, mas as portuguesas não assim tão dependentes do punk quanto à primeira olhadela se aguardaria – há pontas de funk, há lampejos de gothic e há esgares de ska. Mestiçagem que precisa de norte e calejamento.

Mazgani, por sua vez, é acólito, «paysan» e rei da sua arte. Tudo em simultâneo. Aprumado e transbordando aquele soturno carisma à Nick Cave, o luso-iraniano brindou o soalho do Antena3@Meco com um senhor concerto. “Vamos abafar os outros palcos”, soltou, enquanto a cacofónica Azealia Banks teimava em apoquentar quem dela se refugiava. Teimou, lá isso teimou, mas Mazganivenceu como só os grandes fazem – com classe. Ardoroso blues, de alma chagada sob os ensinsamentos de Leonard Cohen, que jamais temeu sacar da cartola riffs que bem assentariam numa viagem delta do Mississippi adentro. Foi grande e nós, “caríssimos” presentes, “fomos lindos”.

Aquela despreocupação nórdica, pulcramente angélica, como se a vida não pregasse qualquer partida a quem vive acima de uma determinada latitude, fixa-se no rosto de Casper Clausen. O esguio frontman dos Efterklang, de sorriso fácil e espontânea simpatia, conta-nos subtilmente que o post-rock incorpóreo dos dinamarqueses não se reveste de amargura mas sim de um júbilo acanhado. Minuciosa, suportada por instrumentalistas de fino recorte, a ambiência proporcionada pelos Efterklang não esquece os tecidos electrónicos e fala-nos num sussurro encantador – outro concerto que teria tudo para ser excepcional em nome próprio. Num festival, sujeito às efervescências de verão e a uma magricela acústica (o som estava baixo em demasia), fica-se pela ternura centrada em Piramida, há quase doze meses editado.

“Toca Smiths!”, clamaram algumas vozes antes de Johnny Marr saltar do backstage para o palco. E tocou. Brandindo o seu impecável casaco azul e ostentando os epidérmicos vincos de quem foi régio há trinta anos, o inglês não esqueceu a razão maior da sua existência musical. Logo à segunda malha, ouvimos Stop Me If You’Ve Heard This One Before – enxurrada de arrepios, portanto. Os britânicos pela multidão espalhados em automático sentido ficaram, como se os The Smiths fossem O hino nacional. Faz sentido; The Queen Is Dead, cá para nós, será eternamente melhor do que a sobranceira God Save The Queen. Fitando uma pachorrenta plateia, cujo semblante poderia ser traduzido em “despacha-te lá, cota, que eu quero ver Arctic Monkeys”, Mr. Marrirradiou história e quem esteve vigilante soube aproveitá-la. Quem não… Estudasse. Parcas são as chances de por cá termos o homem que convulsionou o rock independente à responsabilidade dos seus acordes maiorais, transcritos ainda hoje em The Messenger – álbum que batiza a sua estreia a solo e que motivou a visita ao Meco. Dele, do disco, escutaram-se múltiplos temas (o single homónimo é belíssimo), mas foi a partir das incursões ao colossal espólio dos The Smiths que o concerto se avultou:Bigmouth Strikes Again e o derradeiro par, capaz de esgotar stocks de lencinhos para absorver lágrimas, How Soon Is Now | There Is A Light That Never Goes Out, guinou a actuação de Johnny Marr para a esfera do memorável. I Fought The Law, escrita por Sonny Curtis dos The Crickets, e popularizada ad eternum pelos The Clash, foi também recuperada pelo londrino, adornando com imortal irreverência uma aula de sessenta minutos. Ele, pedagogo. Nós, alunos.

Face ao longo atraso, originado no tratamento de bagagens do Aeroporto da Portela, já havia quem sugerisse Toy, o cantor setubalense, para substituir TOY, o quinteto londrino. Os quatro rapazes e a menina Alejandra lá apareceram, de cabelos indomáveis e krautrock narcótico, totalmente obturado pela falta soundcheck. O que se passou nos primeiros temas foi, sem rodeios, mau de mais: à cambaleante voz, que rumava do ensurdecedor ao silente em poucos segundos, somaram-se as imperceptíveis e difusas guitarras. Até o jogo de luzes, ou a falta dele, levou a que a plateia tomasse a natural opção de visitar os Arctic Monkeys. A calamidade não se manteve durante toda a actuação, diga-se. Noutra visita ao secundário, os TOY lá encarrilharam nas suas jams que choram o shoegaze à Kevin Shields e celebram a vertigem do ácido. Que se redimam totalmente em Paredes de Coura.

Da biqueirada e do hostil crowdsurf made-in Paradise Garage sobra-nos os relatos. Sete anos transmutaram os rapazinhos de Sheffield em bestas de stadium rock, cheias de aperalto, pose galanteadora e atitude crooner. O tempo, para os Arctic Monkeys, consome-se qual pacote de M&M – mal apareceram ante os ávidos fãs portugueses, soltaram a sexy Do I Wanna Know?, música que surgirá no próximo disco. Para eles, o futuro está sempre ao virar da esquina e não surpreende que de AM, o tal quinto álbum marcado para Setembro, tenham vertido ainda mais dois temas. No fundo do palco, são essas duas letras que tomam proporções gigantes, luminosas, e insistem em que nos recordemos do que aí virá. Mas, alto, nem Alex Turner se arriscaria a deixar cair os verdadeiros ases. Solta-se Brianstorm e acende-se na plateia o very-light, como se estivéssemos nos jucundos cenários de Glastonbury ou Reading; recupera-se Dancing Shoes e o frenesim encomprida-se.

Entregando-se ao luxo de quem pode montar um setlist ao jeito de “toma lá todos os nossos êxitos”, os Arctic Monkeys vaguearam entre a morosidade de Cornerstone e o toque lancinante de Teddy Picker. Não há dúvida que desde Humbug, álbum que iniciou a sua ligação com Josh Homme, os britânicos enxergaram novas avenidas, desertos e horizontes imprevistos – descobertas afogadas, por vezes, nalguma inconsistência. Ao vivo, nota-se por demais esse variante e imprevisto toque, que quase nos quer obrigar a ter a certeza de que eles são bem mais do que os putos da I Bet You Look Good On The Dancefloor. São, de facto. Domando o fecho do palco principal quais senhores de três décadas de carreira, os ingleses deslindaram oitenta sólidos minutos, capazes de ocultar as deficiências pós-Favourite Worst Nightmare e de lançar hosanas para o tal AM. Meteram Mad Sounds no encore e disseram-nos “adeus, até à próxima” comWhen The Sun Goes Down e 505, a puxar o sentimento que aquele admirável build-up final carrega.