Mesmo que numa confraria eurodance se viessem a tornar, Sunn O))) e Ulver jamais poderiam arrancar de si os vestígios de outrora. Os tais que, seja qual for a cidade e o local onde assentembackline, colocam uma horda de barbudos no seu encalce. Por esta altura, quarentões, e quiçá exaustos de lidar com o malvado tinnitus, Anderson e O’Malley entretêm-se noutros propósitos. Um chama à Southern Lord os mais badalhocos jovens do hardcore. O outro, embriagado pela experimentação, veste o fato-macaco do improviso em Ensemble Pearl ou Æthenor, só para dois mencionar. O teste à paciência dos amplificadores tem vindo a esfumar-se desde “Monoliths & Dimensions” – as tramas dissonantes que desenrolaram o cinzento tapete para a entrada de Attila Csihar não conseguiram andar de braço dado com as irmãs mais velhas e mal-encaradas de “Black One”.

“Terrestrials” surge dessa premência pela mudança. Aquando do corte e costura para aquele que, ainda hoje, é o último LP conhecido de Sunn O))), os dois norte-americanos galgavam a Europa de hábito às costas. O 200º concerto calhou em Oslo – gelada e capital de um país que nos deu histórias de embalar meninos, por entre esfaqueamentos e igrejas a crepitar. A efeméride, claro, não se celebrou a confetti e Champomi: ligaram aos Ulver e foram até Crystal Canion, o domicílio musical dos noruegueses. A companhia ideal.  Que outros tipos, na música dita extrema, viajaram, numa década, do black metal de nos instigar a acampar nas florestas de Bergen à experimentação electrónica de puxar a nostálgica lagrimita? Se havia gente para acompanhar osSunn O))) numa ode ao improviso, essa tinha de ser a matilhaUlver.

Nasceram três peças, três movimentos. Escrituras de uma madrugada que os guiou até ao nascer do sol, elemento essencial, ou não estivesse ele na capa escarrapachado, a vivaças cores. Ora lá está: “Terrestrials” não tem grande amor pelo opaco nevoeiro que sufocou a LX Factory em 2009. Funciona, se nos guiarmos por esse maniqueísmo entre claridade e penumbra, como o aclamar da langorosa luz matutina. Embora mantenha aqueles tiques sorumbáticos (pois, nesta vida é difícil trocar de pele), fruto delayers calmamente adicionados entre 2008 e 2013, entre eles um jogo de cordas e uma melancolicamente distante trompete, o LP verte uma composição de 36 minutos que se adaptaria solenemente as tramas cinematográficas de um gigante europeu como Béla Tarr. Não há o ribombar do noise que muitos aguardariam. Há, sim, um entrançar de uma sobreposição de orquestramentos, elementos análogos a “Messe I.X-VI.X”, o longa-duração de Ulver editado há meses.

A objecção ao disco levanta-se quando rapidamente nos apercebemos de que esta composição poderia ter sido escrita com outra mestria. Há um certo odor genérico. Como se grande parte de “Eternal Return”, tema final, não fosse mais do que uma anémica tentativa de replicar os “Dead Flag Blues” de GY!BE. Fazendo um exercício simples: se rodássemos “Terrestrials”, sem saber que em campo estavam as duas bandas, dificilmente julgaríamos ser esta uma colaboração entre ambas – pese embora os graves e ecoantes baques “Western Horn”. Ao álbum não lhe negamos beleza, essa tal beleza tão natural da grande tela, mas ansiávamos por mais. Algo para lá de uma certa insipidez que não faz jus às tão sublinhadas valências criativas de Ulver e Sunn O))). Tirando os derradeiros minutos de “Eternal Return”, onde surge finalmente a voz de Garm e a instrumentação de Daniel O’Sullivan, o trabalho acaba por não ser carne nem peixe. Não escancara e não (re)exibe esses talentos que conhecemos, nem concebe um esforço que mereça galardões pela inovação e intuito exploratório.

A “Terrestrials” falta-lhe pujança e nervo para ser mais do que o nosso simples companheiro de fundo.