“O que é do mar se os rios se recusam?”, perguntou Stig Dagerman, em A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer. Pois bem, respondendo-te, Stig, o mar pode ser um concerto de Sun Araw.

Sem dúvida, uma escolha acertada de sala, o Passos ManuelSun Araw é daquelas actuações que sabem bem quando estamos num pequeno espaço, sentados, com pensamentos à deriva. Imaginem estar imersos numa água ocêanica, onde a calma é permanente (a música dos norte-americanos), cortada por momentos de falta de ar ofegantes (a guitarra suja de reverbs) e a subida à tona perante um sol abraz(ç)ador (as samples semi-alegres, envolvidas entre muitos loops).

Há qualquer coisa em Sun Araw que nos remete para outras distâncias que, por sua vez, estão muito distantes entre si: um travo a Animal Collective, um cheirinho aFaust e toda uma mescla que vai desde o experimental puro, passando pelo trip-hope terminando no psicadélico.

Esta arquitectura é mesmo óbvia e demora mesmo o seu tempo a compor-se em concerto. Os Sun Araw começam a sempre a sua música em retalhos, sendo que o primeiro pedaço é uma porção de batida solta que não parece ir a lado nenhum. Mas, como qualquer casa, a música do duo é sempre mais habitável quando completa e esse resultado foi sempre conseguido com as camadas e camadas de pequenos sons que eram acrescentados em loop e que, depois de uma exploração minuciosa da melodia, têm um clímax de intensidade conseguido através de efeitos.

O concerto no Passos Manuel começou com uma ruidosa Last Chants, que rapidamente viu as camadas de guitarras distorcidas em delay transformar-se numa sensual melodia com uma batida compasada que podia ser a base de uma qualquer música de hip-hop. De uma qualquer… de uma muito boa música do género!

De resto, os Sun Araw tentaram fazer um alinhamento para todos os gostos, retrocedendo uns aninhos a Heavy Deeds, no seu tema homónimo ou a Boat Trip, comCanopy. Claro que acabou por ser o LP editado este ano, On Patrol, a estar mais em destaque com, por exemplo, o emocional e forte Ma Holo.

Para o fim, estaria reservada uma homenagem a Neil Young, aliás, uma das maiores influências dos meninos de Los Angeles. Foi, então, encarnada na voz de Cameron Stallones uma versão de Barstool Blues, um original do músico canadiano. O concerto que iria terminar ali – Nick estava indisposto -, mas a audiência acabou por ter um mimo extra: uma fã pediu Horse Steppin e Stallones acedeu.

Hoje, dia 5, a banda canta os parabéns à Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, na companhia de Scout Niblett e US Girls. Amanhã, sábado, a última visita portuguesa destes senhores será a Leiria – e acompanhados pela meninas dos States! -, no Teatro Miguel Franco, antes de voarem para terras de nuestros hermanos. Não percam.