Os recônditos lugares por onde o screamo brotou poderão ser apontados nos Estados Unidos, se a um planisfério recorrermos. Pg.99, Orchid, Jeromes Dream, City of Caterpillar, Ampere: progenitores norte-americanos de um género que irrigou dissonância, emoção e violência sobre as raízes hardcore. Das caves onde álbuns como Chaos Is Me ou Document#8 foram cuspidos, o screamo cruzou o Atlântico e pousou em Itália e França – pátrias de RaeinDaïtro ou Mihai Edrisch (estes seriam a base dos vindouros Celeste), bandas que lhe incutiram contornos do Velho Continente. Mas havia outra. Mais acima no mapa. Suécia.

O que os Suis La Lune fizeram em 2006 tão cedo não poderá ser esquecido e, seis anos depois, Riala tem obrigatoriamente de conviver com a sombra não de um fantasma, mas de um bem vivo Quiet, Pull The Strings!. Mais: tem de também lidar com Heir, um EP que em 2008 continuou a levar água ao moinho de uns nórdicos mestres em trocar as voltas ao género onde se inserem. A sua finta de corpo assenta num movimento simples – o de encher de boas vibrações um estilo musical tantas vezes envolto em depressivos contornos. Os Suis La Lune são diferentes, mas jogam inesperadamente com as mesmas regras dos seus semelhantes.

A diferença revela-se na eficácia com que entrelaçam as rasgadas e sofridas vozes com texturas dinâmicas e harmoniosas. Abraçadas a elas, às vozes, estão duas guitarras brilhantemente melódicas, incansáveis e inesgotáveis no seu dom de encher as criações dos suecos de momentos inspirados no que de bom o post-rock tem para oferecer. Em Riala, seis anos depois do seu outro longa-duração, esse talento dos Suis La Lune está perentoriamente realçado, num álbum que volta a rolar sobre os carris da polirritmia, mas que não se proíbe de descansar e contemplar as paisagens que o rodeia. Pelo contrário. Ouça-se o magnífico momento em que uma trompete é adicionada a Wishes & Hopes e a brandura shoegaze da mid-section de Sense In A Broken Dialogue. E convém frisar novamente: poucos trabalhos dentro do género serão tão cinzelados a nível das criações de guitarra quanto este segundo álbum dos suecos. Não só no que aos riffs e acordes concerne, mas igualmente no tom escolhido para desenhar as ascéticas passagens de In Confidence, a título exemplificativo.

Os Suis La Lune transportam em si uma candura que os revela ímpares, equiparáveis só provavelmente aos Aussitôt Mort de garras post-metal/sludge afiadas. Riala sublinha-lhes o estatuto e permite-lhes manter a tocha acesa na olimpíada do skramz europeu.