Os Porcupine Tree não lançam um álbum de originais desde 2009 (e encontram-se actualmente num hiato), mas Steven Wilson não tem andado parado: lançou novos álbuns de No-Man e Blackfield, bem como o primeiro de Storm Corrosion, esteve envolvido na produção de álbuns de Opeth, Orphaned Land, AnathemaRobert Fripp, tem remisturado os álbuns de Jethro Tull e King Crimson, e ainda tem tempo para o seu projecto a solo.

The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) foi lançado no início deste ano em vários formatos, incluindo edições especiais com demos, versões instrumentais ou mixes em 5.1. A acompanhar Steven Wilson neste seu terceiro registo em nome próprio estão vários músicos de peso, como Adam Holzman, que já tocou com gigantes do jazz como Marcus Miller e Miles Davis e que esteve presente na tour do 2º álbum de Wilson; Theo Travis, colaborador habitual de Porcupine Tree nos instrumentos de sopro; Guthrie Govan, que por esta altura já dispensa apresentações; e Marco Minneman, que acompanha Guthrie Govan nos The Aristocrats e já passou por projectos comoNecrophagist e Paul Gilbert. Felizmente, a musicalidade destes nomes é maior do que os seus egos, e cada faixa do álbum dá provas disso.

A influência clara de Allan Poe manifesta-se essencialmente no mindset que nos é imposto pelo título tão semelhante a The Raven And Other Short Stories – o do período literário do Romantismo, tão pejado de histórias sobre amor e morte. Não há uma adaptação directa de nenhuma obra do autor, e cada faixa tem um tema distinto, embora todos relacionados com personagens solitárias. Concede-nos a liberdade de decidir se é ou não um álbum conceptual.

De uma forma ou de outra, o espírito do prog rock dos anos 70 permeia todo o álbum, e cada música parece uma viagem com início, meio, e fim, ultrapassando três delas a fasquia dos dez minutos. Excepto em The Pin Drop, tudo isso ocorre com base nos instrumentos, não na voz, pois esta apenas contextualiza, em poucos versos, a composição. E ainda bem – nada contra as cordas vocais de Steven Wilson, mas os solos de Guthrie Govan em Drive Home e The Watchmaker merecem a primazia e os constantes fills e variações de Marco Minneman ao longo do álbum fazem-nos questionar se ele aprendeu realmente partes pré-escritas ou se improvisou brilhantemente durante 50 minutos.

Ainda ao nível instrumental, bastaria o baixo rasgado no início deLuminol para deixar Chris Squire com um sorriso nos lábios, ou o riff da YYZ no final de The Watchmaker para fazer o mesmo com os Rush, já para não falarmos dos teclados omnipresentes e da dificuldade em não pensar em Jethro Tull das primeiras vezes que ouvimos a flauta transversal de Theo Travis. Em vez de serem “retro”, estes elementos surgem com naturalidade e fazem sentido no seu contexto. Dos dois finais sinfónicos (em The Holy Drinker e na música que dá o nome ao álbum), o segundo é um dos poucos momentos a soar, de facto, um pouco cliché. No entanto, após o aparente final, surge ainda um piano, tocando timidamente as notas da melodia principal. Mostrando-nos nos derradeiros momentos como tudo terá começado, somos obrigados a recuar ao início da música e a olhá-la como um todo. Um gesto pequeno que salva a faixa que menos se impõe neste álbum.

Para terminar, o trabalho de pós-produção, é tão irreprimível quanto moderno (algo já característico de Steven Wilson, aqui com uma mãozinha de Alan Parsons). Podemos pensar em The Raven that Refused to Sing como um percurso alternativo para a música, um percurso que ignora os últimos 40 anos e aproveita a tecnologia actual para dar continuidade aos anos de ouro do prog. Com tanto a acontecer a qualquer dado momento, o 3º registo a solo de Steven Wilson proporciona-nos uma experiência nova a cada audição.