ZDB costuma ser um paradoxo. Especialmente no Bairro Alto de sexta à noite, altura em que o coração da capital mais fervilha. Enquanto o corropio de gente se vai entrelaçando pelas ruelas, a Zé dos Bois funciona como um oásis pacífico e acolhedor. A juntar a isso, estava um cartaz que convidava o corpo a sentar-se nas cadeiras previamente dispostas, a fim de relaxar a mente, cerrar as pálpebras e aproveitar a viagem.

Pouco depois das onze da noite, entrava em palco Marc Richter, um alemão natural de Hamburgo. Consigo trouxe uma mesa repleta de pedais, um leitor de vinis, uma shruti box, compondo uma parafernália necessária para o seu projecto Black To Comm. Não demorou muito até que se percebesse qual o intento de Marc: criar múltiplas paisagens mentais através de diversos layers, culminando numa muralha noise e apelativa ao sentido auditivo do ser humano. Experimental até ao tutano,Richter conseguiu aproximadamente uma hora de drone mindfucking, que alguns poderão ter achado saturante. Outros, terão ficado satisfeitos pela evasão mental – a maioria, dado o aplauso sonante.

Logo de seguida, chegou Steffen Basho-Junghans. O pródigo guitarrista alemão regressou ontem à ZDB, dois anos depois da sua última presença no Bairro Alto.Junghans, que também passou por Aveiro e Setúbal, entrou em palco visivelmente bem-disposto, perguntando aos presentes se poderia começar ou se ainda havia alguém que queria fumar ou beber alguma coisa. O público deu-lhe licença; Steffen pegou na sua bela guitarra acústica de 12 cordas, dedilhando-a e usando um slide, que de imediato cativou totalmente a atenção de quem assistia. A música, como Steffen explicou no final, era material já composto há algum tempo, mas ainda não lançado oficialmente. E, depois de metaforizar a canção com a série Star Wars, partiu para o álbum 7 Books (2004), desta vez numa guitarra de 6 cordas – à qual confessou estar pouco habituado, pois era uma acústica da ZDB e não dele. Mas, e então? Assim que o alemão começou a tocar, esses inconvenientes dissiparam-se. A técnica pouco ortodoxa de Basho-Junghans é cativante e dá gosto ver um mestre na execução da sua arte, a poucos metros de distância.

Saltando entre a de doze cordas – guitarra que Steffen confessou ser extremamente difícil de afinar, daí o ter feito várias vezes durante a actuação – e a de seis, o germânico presenteou o público com “love songs” dedicadas à “Dolphin Princess”, sua musa inspiradora. Aqui e acolá, foi pedindo para que imaginássemos uma paisagem montanhosa depois de uma chuva, quando as gotas parecem diamantes. Ou para que imaginássemos um espaço branco e vácuo. E, nesta sucessão de sugestões mentais, o guitarrista acústico espalhou a sua composição folk, enquanto preparava a sua despedida com uma canção dedicada a um dragão de infância, que não era mais do que uma locomotiva que passava nos montes onde cresceu.