O novo trabalho da banda de Jason Pierce é um álbum extremamente íntimo e carregado de inseguranças pessoais. Foi, afinal, escrito enquanto o mentor dos Spiritualized se encontrava sob medicação e a recuperar de uma doença de fígado. Pierce olhou a morte nos olhos, mas sobreviveu para contar a história –Sweet Heart, Sweet Light é essa história.

Depois de um pacato prelúdio, o tom com que Jason Pierce se lança na dura batalha contra a doença é de desafio (“show’em what you can do” é o repto que se ouve na enérgica Hey Jane), mas apesar dessa sua vitalidade inicial rapidamente se deixa vencer pelo cansaço e cai numa depressão profunda que virá o acompanha durante grande parte do disco (“sometimes I wish I was dead, cause only the living can feel the pain” desabafa, logo de seguida em Little Girl). De facto, a medicação a que J. Spaceman esteve sujeito deixava-lhe a mente à deriva (o álbum esteve mesmo para se chamar simplesmente “Huh?” fruto dessa desorientação) e só isso pode explicar, não só a oscilação nos seus estados de espírito, mas também a forma discreta com queSweet Heart, Sweet Light se apodera da nossa cabeça e a anestesia de todos restantes sentidos – um pouco como Ladies and Gentleman We’re Floating in Space fazia (e ainda faz).

Se por um lado, Sweet Heart, Sweet Light pisca o olho ao histórico álbum dos Spiritualized (as temáticas da morte, religião e insignificância humana são recorrentes nos trabalhos de Pierce), este novo disco é mais melódico e ainda mantém uma distância considerável das vibrantes paisagens espaciais e psicadélicas do ex-libris da banda. Com mais violinos suaves do que cacofonia sonora, convém esclarecer: este ainda não é o disco pelo qual os fãs mais esperam há 15 anos, mas é, muito provavelmente, o melhor álbum dos Spiritualized desde então.

Às vezes, é preciso quase perder algo para lhe dar o devido valor.Jason Pierce sentiu isso na pele mas, como o desenlace da sua história foi feliz, também a mensagem final do disco é optimista. Lá nisso, Sweet Heart, Sweet Light é claro: enquanto há vida (heart) há esperança (light).