Solefald - "World Metal. Kosmopolis Sud"
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“World Metal. Kosmopolis Sud” é daqueles álbuns tão difíceis de catalogar, tão recheados de pormenores deliciosos e tão bem elaborados, seja no instrumental, nas vocalizações ou nas letras, que é inevitável não ficarmos com um sorriso idiota na cara quando contemplamos a hercúlea tarefa de lhe fazer justiça com uma descrição.

Podemos recorrer ao passado dos Solefald e dizer que voltaram ao melhor da experimentação que caracterizou sobretudo o seu início, mais ou menos da mesma forma que em “Kosmopolis Nord” se vislumbra o passado mais recente. Mesmo com uma estreia em que nalgum do melhor black metal alguma vez escrito apareciam também melodias dançáveis acompanhadas a palmas e um berimbau de boca, e mantendo presente que os dois álbuns que lhe seguiram eram ainda menos lineares, fica a sensação de que não chegamos perto do que aqui se passa. Primeiro, porque a variedade exibida no álbum é superior a tudo o que o antecede, incluindo elementos de techno, percussões variadíssimas, guitarras da Tanzânia e até uma calimba. Em segundo lugar porque finalmente conseguiram conciliar a peculiar genialidade de álbuns como “The Linear Scaffold” e “Neonism” com uma produção que lhe faz justiça.

De certa forma há realmente um olhar para o passado em “Kosmopolis Sud”, por vezes assumindo uma literal forma de referências a álbuns anteriores que deliciará os mais antigos fãs do duo. No entanto,“World Metal.” fá-lo sem entrar em revivalismos, com uma constante sensação de desconforto. Reflexão e mutação.

Avançando um pouco no tempo, em Julho de 2011 um imbecil matou setenta e sete pessoas em Oslo, algo provavelmente impensável para um cidadão norueguês há uma década atrás.Cornelius Jakhelln, metade dos Solefald nos tempos livres e escritor a tempo inteiro, havia perdido a mãe dois meses antes. Os inevitáveis sentimentos de perda associados a qualquer uma das duas tragédias são expurgados na sequência de “2011, Or A Knight Of The Fail” e da arrepiante “String The Bow Of Sorrow”, dois temas que compreendem entre si um momento de singular e frágil intimidade na história da banda. Tendo lugar na segunda metade do álbum, será no entanto esse o ponto de partida para o que se encontra no início do mesmo: a viagem a África, o incorporar de novos elementos num já vasto caleidoscópio musical. Aumenta a popularidade de ideias isolacionistas e xenófobas, os Solefald reagem abrindo ainda mais os seus horizontes.

“World Metal. Kosmopolis Sud” tem uma série de qualidades raras. Sem nunca ser minimamente convencional, mantém um equilíbrio incrível entre grandes riffs e melodias bem trabalhadas, tudo assente no mais forte trabalho rítmico na história da banda. Como é habitual, as letras não são propriamente imediatas (necessitando até de uma tradução ou outra) mas acrescentam muito ao trabalho e nunca caem em desnecessários abstraccionismos desprovidos de conteúdo.

Os Solefald sempre foram demasiado estranhos e únicos, tanto para estabelecer modas como para ser facilmente copiados. Se calhar é mesmo preciso uma predisposição específica para entrar na estética da banda. Assim seja. Para aqueles que partilham dessa afinidade: regozijemos, que não é todos os anos que sai um disco destes.