Ocasiões há em que um pobre escriba se vê engolido por algo que ultrapassa as dimensões do narrável. Imagine-se o quão difícil seria, há precisamente 259 anos, arquitectar em sintaxe uma Lisboa tombada pelo terramoto, de Tejo pelas barbas e a morte grafada na pele. Erguer, frase a frase, o destruído.

No Panteão Nacional nada desabou, mas nem por isso o relato se prenuncia fácil: Simon James Phillips deu-nos como fio condutor o oculto. E reportar o extra-sensorial sem cair na patetice do lugar-comum mostra-se um labiríntico bico-de-obra.

O vácuo espiritual, na sua invisibilidade, desceu sobre o átrio. E, ali, reverberando nos cenotáfios vestidos de mármore, ganhou um sentido que na dimensão terrena julgaríamos impossível – escutámo-lo, ouvimo-lo. Porventura terá sido essa a glória maior de um Simon James Phillips sentado em primeira fila, como se daquele desenlace fosse espectador e não criador maior – o de atribuir voz à alma.

Reconhecemo-la no sussurro e tememo-la no clamor. Deambulando entre a placidez divina e o estrépito que mora na apocatástase, não nos inquietámos ao pressentir-lhe as palavras – aceitámo-la neste “rés-do-chão do pensamento” como se nossa fosse desde o minuto zero. E, no vagueio místico, no vai-e-vém imaterial que por uma hora fez do Panteão escolta aberta para o perpétuo, honra plena ao ensemble de sopros da Orquestra da Câmara Portuguesa orientada por Nils Ostendorf – foi ela medium numa coreografia sublime.