Vamos directos ao assunto: Valtari é a léguas o pior disco da carreira dos Sigur Rós (vamos deixar Von, disco experimental de início de carreira, fora destas contas). É certo que Takk era uma mera continuidade dos trabalhos anteriores e que Med Sud I Eyrum Vid Spilum Endalaust tinha uma incursão por uma alegria de gosto algo duvidoso. Mas, na verdade, eram musicalmente quase imaculados e tinham temas extraordinários como Hoppípolla,Milanó, Gobbledigook ou Festival. E é, desde logo, o que aqui falta: temas memoráveis, com crescendos instrumentais e emotivos à medida do som único, algures entre o post-rock e a dream pop mais melancólica, que os Sigur Rós criaram.

Nos cinco anos que passaram entre Med Sud… e Valtari, o vocalista e guitarrista Jonsi desmultiplicou-se em dois projectos paralelos: os instrumentais e mais arrastados Riceboy Sleeps e um desastrado disco a solo em inglês (Go), demasiado leve e desprovido de toda a intensidade da banda mãe. Essas opções e alguns indícios já manifestados em Med Sud… (uma alegria semelhante em alguns temas ou o fecho com All Alright,abandonando o islandês ou o dialecto hopelandish) poderiam dar a entender que Valtari seguiria esse caminho. Mas, curiosamente, não é por aí que o álbum falha, mas por se aproximar do lado mais monocórdico de Riceboy Sleeps.

É revelador que o melhor do disco esteja provavelmente nossingles de apresentação. É que se Varúð é efectivamente Sigur Rós vintage, com o piano a fazer-se acompanhar de violino, guitarra em distorção e um coro infantil, num crescendo épico sublime e próximo do lindíssimo Ara Batur (embora menos orquestral), Ekki Múkk era apenas um tema simpático. Com loopsde voz, pequenos ruídos e sons de teclados ou de cordas, este tema já mostrava falta de rasgo, de acelerações que levassem a música para uma dimensão onírica e etérea, como tantas vezes aconteceu no passado. Contudo, ao ouvir Valtari na íntegra, a sensação de desconsolo é muito mais acentuada. Quase exclusivamente assentes em teclados arrastados e manipulações electrónicas minimais e difusas, sem percussão ou o som da guitarra tocada com o arco, marca característica do dos Sigur Rós, o resultado são temas ensossos e que dificilmente seriam mais que lados B ou intros de obras-primas como Ágætis Byrjun ou ( ).

É lógico que, a espaços, há momentos bem bonitos e arrepiantes e que nunca a música da banda islandesa será totalmente desinteressante. Mas, perante um passado tão notável, exige-se mais dos Sigur Rós. Exige-se transcendência e, se retirarmosVarúð, ela praticamente não existe em Valtari.