Quem, em Fevereiro, viu os Sigur Rós no seu regresso Portugal, ficou previsivelmente surpreendido com o que ouviu dos temas novos. Mais crus e mais pesados, os quatro originais prometiam uma banda com fidelidade q.b. ao passado, mas renovando o estilo através de guitarras ligeiramente mais abrasivas, uma percussão quase claustrofóbica e uns metais bem sombrios. Num disco de várias facetas, esta é sem dúvida a mais interessante de Kveikur.

O disco abre com o maravilhoso Brennisteinn, com uma entrada sonicamente diabólica, antes de redundar num refrão épico e numa vocalização a capella de Jonsi capaz de arrepiar o mais insensível. Na mesma medida, segue com outros momentos de inspiração superlativa e renovada, com destaque para o levitante Yfirbord,com uma belíssima conjugação entre uma batida subliminar, uma exploração perfeita de ruído e silêncio e uns loops de voz estrondosamente abafados e enigmáticos. E há ainda a solenidade apocalíptica da mistura de percussão e metais de Hrafntinna ou o tema título, talvez o mais noisy e violento alguma vez composto pelos Sigur Rós. Para além destes quatro temas, precisamente os tocados ao vivo, que dizer do resto do álbum? O resto é, infelizmente, um regresso ao lado mais monocórdico e inofensivo de Valtari e do projecto paralelo Riceboy Sleeps e à banalidade pop do disco a solo de Jonsi.

Kveikur fecha com três instrumentais, onde se destaca a beleza do pianinho de Var. Mas, mesmo aí, comparando por exemplo comUntitled #2 (Samskeyti), tema arrebatador de (), fica a sensação que falta qualquer coisa, uma chama que nos transporte psicologicamente para outras paragens, da mesma forma que soa a inconsequente ouvir a sobreposição electrónica de camadas sonoras nos restantes dois temas sem voz. Contudo, o pior está mesmo na alegriazinha duvidosa, para não dizer parola, recalcada do trabalho a solo de Jonsi, a que não será indiferente a saída do teclista Kjartan Sveinsson. O single de apresentação, Isjaki, já tinha dado o mote, mas a coisa piora ainda com temas comoRafstraumur, num pavoroso registo electro-pop celestial e a certeza porém de que isto não são, não podem ser, os Sigur Rós. Qualquer comparação com autênticas elegias pop do passado, como Olsen Olsen, Hoppípolla ou o mais pulsante Gobbledigook, soa necessariamente a heresia.

Kveikur volta a não ser um mau disco e, no seu lado mais surpreendente, contém alguma da melhor música de 2013, mais densa e escura do que estávamos habituados nos Sigur Rós, mas profundamente arrebatadora. Todavia, para quem fez as obras-primas Ágaetis Byrjun, () e Takk, o balanço é curto e profundamente irregular. Assim, o resultado é um álbum que não só se ofusca nos meandros do passado recente menos inspirado, como, no cruzamento dos vários estilos e influências que por aqui passam, perde consistência enquanto um todo. E aí a desilusão instala-se…