Os nova-iorquinos Sightings vêm ao Bairro Alto, numa noite de caminhos certamente mais luminosos que os que nos trazem à Galeria Zé dos Bois. O novíssimo Terribly Well, saído há menos de duas semanas, no primeiro de Abril, vem ainda a borbulhar ruídos esquisitos.

Mas é a mais pura das verdades. Quando em entrevista de antevisão do disco, o homem da bateria Jon Lockie confessou que a banda não possui influências. E, ao tê-las, estas são os próprios Sightings. Podemos constatá-lo em estado bruto neste último registo – sendo este, porém, um desígnio perseguido desde a partida, em 1999. Marco temporal que viria cunhar no próximo século, nos circuitos mais experimentais da música, desde os States ao Japão, o denominado jucosamente: “fim do Rock”. Mas antes terá sido um novo início: uma reinvenção artesanalmente abrupta, que, juntamente com bandas com Noxagt ou USAisamonster, os Sightings protagonazaram.

Mas ainda é cedo. São vinte e duas, contudo ainda há tempo para beber uns copos. Pedro Sousa entrou no aquário após cerca de trinta minutos – este encontra-se fechado para que o solitário som do saxofone não se contamine na azáfama do Bairro Alto.

Uma performance que, numa primeira análise periférica, poderia afigurar-se-nos estranha ou mesmo absurda. Talvez o seja. No entanto, se observarmos realmente, o homem do saxofone está sem dúvida na plenitude da concentração, e, principalmente, do esforço. Ele luta com o instrumento, trata-se de uma batalha unilateral entre o homem e algo mais superior. O som.

No fim, Pedro Sousa quando separado do saxofone é um condenado perdoado, sem as guilhotinas. Saiu visivelmente atordoado. Mesmo a alguma distância, se viam as veias que se salientavam nos sopros desesperados. Lá fora, por entre o fabuloso ambiente intimista que a ZDB aufere, com as velas dentro dos sacos de papel nas mesas, e projectores quase sem luz, os convivas vão-se tornando mais numerosos.

Não passou muito tempo e umas estucadas de baixo dão o sinal à futura plateia, que se precipita para dentro do aquário. Agora de portas escancaradas, pois vai-se fazer barulho. É o que esperam os fãs da banda, que neste momento enchem um pouco mais o recinto, ainda assim muito vazio. As estucadas de baixo vieram a tomar forma por meio do usual feedback, em Better Fastened, do recém lançado disco.

Quando uma banda com três elementos faz tanto barulho, só poderá ter algo de especial: Mark Morgan (voz e guitarra),Richard Hoffman (baixo) e Jon Lockie (bateria) estão em palco tão tranquilamente como se de um ensaio se tratasse. Vão conversando, em meio às necessárias afinadelas, entre os fins e inícios de canções. Ambos ocorrem sempre de uma forma ironicamente inesperada; ironia que foi também frequente nas poucas vezes que Mark Morgan se aproximou do microfoone para falar.

A voz é de uma rispidez metálica, que, com uma estranha e brilhante coerência, se embrulha e confunde no restante caos sonoro. Pedais vários à frente de Mark Morgan e Richad Hoffman, fios e mais fios. No meio, destaca-se uma caixa de ritmos, que parece a bateria de um automóvel. Canções de Terribly Well ocupam, como esperado, a primeira parte da actuação. Foi notória a aceitação da malta, que apesar de mostrar alegria nos caminhos percorridos pela banda neste novo disco, mostrou também que a maioria ainda não o conhece e preferiria, talvez, abanar o capacete noutras malhas da banda, coisa que este disco não incentiva particularmente.

Os sons que se esperavam começaram a surgir, e, agora sim, os corpos já se mexem mais: a bateria de Lockie dá uma ritmo bruto para entrar Saccharine Traps, malha proveniente de City of Straw, cheia de riffs esquizofrénicos e carregada do habitual ritmo antagónico do baixo de Richard Hoffman.

Depois de uma brevíssima saída de palco, que ocorreu quase individualmente com Mark a sair disparado seguido pelos dois músicos, o vocal do trio alertou desde logo que se iria penetrar na fase mais negra de Sightings Tide and Pine a pôr um ponto final a mais uma visita da banda a Portugal. As poucas pessoas que marcaram presença tentaram ainda uma segunda vinda, mas tal não sucedeu. Nem os próprios fãs o esperavam, tendo em conta o geral do concerto que não teve a emoção miníma necessária, que, por norma, faz quebrar a rigidez de um setlist.