É bom saber que a República da Música – ainda dá vontade de lhe chamar Tuatara – está de volta às lides. A garagem em Alvalade onde, por exemplo, já tocou Converge, merece fazer parte da fileira de salas lisboetas; ainda para mais agora que o problema do aquecimento parece estar resolvido (ou, pelo menos, melhorado). O carácter literalmente undeground que detém dá uma aura bem mais intensa aos concertos que por lá passam – pois, é aquela aura que tantas vezes falta ao Cine-Teatro. A República da Música não encheu ontem, mas, ainda assim, apresentou uma boa casa para uns headliners, que, como disse o Ricardo de For The Glory, há uns dez anos eram capaz de ter esgotado aquilo tranquilamente. Quem foi não se arrependeu.

Os Atentado foram a primeira banda a sentir o palco. Regressados de um hiato de duas décadas, e com a formação renovada – na qual se pode encontrar Ricardo Correia e Paulo Lafaia dos We Are The Damned -, os Atentado voltaram com uma missão simples: criar um punk marcadamente crust/d-beat, na tradição de uns Doom ou de uns Nausea. Combatendo uma acústica demasiado ecoante e embrulhada, o grupo conseguiu ainda assim um bom concerto, conseguindo a aprovação de um público não tão direccionado para a sonoridade praticada pelosAtentado. O álbum sai a 11 de Setembro e promete.

Num cartaz que reunia bandas de norte a sul de Portugal, os A Thousand Words vieram do Algarve até Lisboa para confirmar uma sensação que muitos já detinham: a de que são uma espécie de selecção de esperanças do hardcore nacional. Formado há apenas dois anos, o quinteto apresenta já um som bem forte e impactante e nem o pouco tempo de actuação lhe conseguiu retirar o ímpeto. O público, ainda assim, continuou estático e nem mesmo a cover dos belgas Rise and Fall, com direito a participação especial de um membro da plateia, mexeu com a crowd. Ainda assim, os A Thousand Words ficaram na retina, com as músicas novas a denunciarem um futuro auspicioso para a banda.

Os Death Will Come chegaram da outra ponta do país, mais concretamente do Porto. A viver uma boa fase, fruto de terem vencido o Resurrection Band Contest, que lhes permitirá actuar em Viveiro, os nortenhos conseguiram a primeira entusiástica reacção do público. O EP lançado há um ano já se entranhou nos meandros do underground português e colocou os DWC na 1ª divisão do que por cá se faz, com a cover da mítica (You Gotta) Fight For Your Right (To Party!) dos Beastie Boys a ser servida como brinde especial num gig que aqueceu os ânimos para as duas bandas mais esperadas da noite.

Já os For The Glory dispensam apresentações em demasia. A viver uma nova fase, agora que lançaram o 3º álbum da carreira, Some Kids Have No Face, a banda portuguesa continua com a pujança que lhe é característica. Abrindo com a clássica Fall In Disgrace, os FTG distribuíram quarenta minutos de bom nível, dando ênfase, claro está, ao mais recente trabalho. Armor of Steel,Some Kids Have No Face, All The Same e The Pack foram as músicas escolhidas do novo album, entrelaçadas com a restante discografia e com uma cover de Gorilla Biscuits Things We Say, dedicada à velha guarda do HC nacional. O público, como seria de esperar, entregou-se de uma forma que até então não tinha sido vista, com os tradicionais two step, sing along e stage dives a fazerem parte das celebrações, num concerto que encerrou com a emblemática Survival of the Fittest.

Já passava da meia-noite quando Shai Hulud entrou em palco. Consigo, trouxeram um legado de quase vinte anos de carreira, bem representados pelo guitarrista Matt Fox, o único membro da formação original dos norte-americanos. Desde sempre, os Shai Hulud caracterizaram-se por um som pouco tradicional, com um hardcore de baterias apontadas à experiência progressiva e com um feeling particular, tão bem expelido através das letras e dos riffs singulares.
Set Your Body Ablaze deu início a um concerto bastante intenso, onde a plateia atingiu níveis de dedicação que espantaram todo o grupo. A cada pausa, Matt Fox mostrava-se rendido aos portugueses, classificando-os como únicos e como verdadeiras enciclopédias de música. Os circle pits repetiam-se, o suor ia aumentando a olhos vistos e músicas como Misanthropy Pure ou A Profound Hatred of Man colocaram o gig nos píncaros, com o vocalista Mike Moynihan a cair de joelhos junto à bateria, fatigado pela impulsividade do público português.

Os elogios de Fox à cena nacional repetiam-se a rodos, com o cérebro do grupo a considerar a passagem por Alvalade o melhor concerto de toda a tour e a admitir que os Shai Hulud tocariam tudo o que a plateia pedisse. Por falta de tempo, isso obviamente não se concretizou, mas houve ainda oportunidade para um encore extenso, que contou com uma conver de The DescendentsEverything Sux, e uma For The World que, despoletado o caos, fez com que Moynihan perdesse um dente. Ponto negativo numa noite que, atendendo ao que osShai Hulud já disseram na sua página no Facebook, tão cedo não será esquecida.