Tiago Bettencourt, que conquistou o coração dos portugueses com uma carta de amor, foi mais arrojado a noite passada no Meo Arena. Investindo desde logo no engate com a sua versão daCanção Do Engate de António Variações. O amor não foi tanto que tenha doído, mas resultou bastante bem: apesar de curta a actuação, teve bastante adesão por parte da já volumosa plateia. E muito mais gente foi entrando enquanto tocava. Tiago Bettencourt é um Tom Hanks da música portuguesa, apesar do estilo sussurrado meio canastrão, consegue comover muita gente: cantigas como “Laços”, “Pó De Arroz” ou “o Jogo”, obtiveram consideráveis coros e outras recorrentes reacções de animo.

Entretanto, um tufão de gente invadiu o antigo Pavilhão Atlântico e o ar começou a adensar-se. Se não foi casa cheia, esteve bem perto. O pouco tempo da primeira actuação alongou a espera, masSeu Jorge não demorou muito após a hora marcada. Houve espaço para a natural impaciência, apelando a uns berros de chamamento, até que as luzes se apagaram. Primeiro entrou a banda – um extenso conjunto de músicos – guitarras, sopros, teclas, baixo, DJ e claro – todo o tipo de elementos que o samba requer. Sem as intermitências usuais em intérpretes que actuam em nome próprio (somente um ligeiro impasse), entrou o sambista brasileiro, homem da favela, de boné na cabeça e “Alma De Guerreiro. À segunda, emerge o eterno handicap desta sala: a Meo deveria indemnizar a “Mina Do Condomínio” pela notável perda de groove que a acústica permitiu. Ainda assim, sem deixar de ser o primeiro grande momento, a música deu o mote à afinadela das vozes e dos pés.

O samba funk contagiante proliferou nos primeiros tempos de espetáculo. Quem não sabe sambar também dança e não é preciso conhecer para gostar, basta não ser insensível ao ritmo e à boa disposição típica do “favelado” (mesmo na tristeza). A ilustrar isso mesmo, Seu Jorge ataca “Eu Sou Favela, uma sentida homenagem em formato samba, representando “a verdade que não sai no jornal” sobre estas comunidades. Dentro da mesma linha temática, e após se apagarem as luzes e ter-se temido por momentos um encore prematuro, Seu Jorge surge sozinho em palco e em estilo spoken word. Recita “Negro Drama” – o visceral e comovente hino de Racionais Mc’s, para de seguida se quedar em palco de guitarra empunhada e enternecer o público com um leque de canções de amor: entre estas a belíssima “São Gonça” e “O Seu Olhar.

Mania de Peitão” a despontar outra vez na sedução do samba, os convivas vão desentorpecendo os músculos, trocando os abraços pela dança. E o concerto contínua em clima entusiásta com “Amiga Da Minha Mulher” e, depois, “Eu Tive Razão”.”Carolina” e a adorada “Burguesinha” confirmam e prosseguem com a cruzada de “Samba Esporte Fino” esta noite. Saída de palco. Forte ovação no retorno e, no desenlace da longa actuação, são escolhidas duas canções cover: primeiro uma do veterano sambista Jorge Ben Jor, “Mas Que Nada; em de seguida, uma viagem aos anos 70 com “Sossego” do lendário Tim Maia. O pioneiro da música dance brasileira introduz a despedida, com todos os elementos em cima do palco a dançar ao som de “On The Beat” de B.B. & Q. Band.