Com os Ramesses em hiato e Tim Bagshaw aparentemente fora da banda, não demorou muito até que o músico britânico residente nos Estados Unidos nos oferecesse mais música pesada, neste caso rodeando-se dos membros dos Unearthly Trance, que também tinham decidido cessar as actividades. Nos Serpentine Path o doom do britânico vira-se para o passado e reveste-se de um death metal com um perfume marcadamente velha guarda.

“Emanations”, assim intitulado segundo álbum da banda, assinala a passagem de uma para duas guitarras com o ingresso na banda de Stephen Flam, dos míticos Winter. Com estas novidades como pano de fundo, estivemos então à conversa com Ryan Lipynsky, vocalista.

O vosso segundo álbum “Emanations” foi recentemente lançado. Que tal se sentem em relação a ele?

 Estou bastante satisfeito e acho que saiu muito bem. A sonoridade é bastante fiel àquilo que queríamos atingir e em geral acho que criámos algo único, honesto e esmagador.

Depois de estabelecerem a sonoridade dos Serpentine Path com a estreia homónima, como é que abordaram a escrita do novo disco?

 Decidimos que queríamos manter a mesma direção mas refinar alguns elementos. A principal mudança acabaria por ser a inclusão do Stephen [Flam, guitarrista dos  Winter] e o passar abordar a banda em termos de dois guitarristas. A escrita acabou no entanto por ser bastante semelhante com a do primeiro álbum, já que oTim Bagshaw é o principal compositor da banda e inicialmente é ele que faz as demos em casa com uma drum machine. Só depois é que o pessoal aprende os temas e se exploram novos arranjos nos ensaios. Julgo que desta vez houve um grau de preparação bastante mais variado antes de ir para estúdio, algumas das músicas tinham sido treinadas bastantes vezes enquanto outras estavam um pouco mais frescas e soltas. Acho que o Jay Newman [baixista, também assina mistura e produção] fez um grande trabalho no processo de gravação em conseguir que tudo encaixasse e todos tivemos algo a dizer sobre que temas é que fariam parte do álbum e quais é que seriam deixados de parte.

Dado que vocês são frequentemente descritos como death doom e o “Into Darkness” dos Winter é um dos álbuns mais emblemáticos do género, que tal é ter o Stephen Flam a juntar-se à banda? Como é que isso aconteceu?

Foi muito entusiasmante ter o Stephen a juntar-se à banda. Claro que os Winter são uma influência para nós e ainda por cima vêm da mesma zona de Nova Iorque onde todos os membros deUnearthly Trance cresceram, o que torna as coisas ainda mais excitantes. Isto tudo começou com um amigo em comum que nos apresentou ao Stephen e ao John [Alman, baixista]. Entretanto gravámos uma versão da “Servants Of The Warsmen” para um 7” de tributo aos Winter, mandámos-lhe cópias e acho que isso deve ter acabado por nos pôr no radar deles enquanto músicos e pessoal da cena local que lhes dava valor e apreciava a sua sonoridade. Entretanto, como os Winter tocaram uns concertos há uns anos atrás e o Jay trabalha numa loja de aluguer de instrumentos, ele foi ficando amigo do Stephen, mostrou-lhe o primeiro disco de Serpentine Path e o ele gostou tanto mostrou interesse em ser segundo guitarrista da banda. Desde então que encaixou na perfeição, aprendeu logo a maioria das malhas do primeiro álbum e sabíamos que era uma bela adição para nós.

Que impacto é que a segunda guitarra acabou por ter no som que praticam?

 É mais cheio e “vivo”. Nos ensaios ficamos com uma sonoridade muito mais stereo, como quando gravamos e isso é bastante satisfatório para nós. Mas sobretudo, é ainda mais alto [risos]!

Tu, o Jay e o Darren tocaram juntos durante bastante tempo nos Unearthly Trance. Como é que compararias essa experiência com a actual, de estar também com o Tim e com o Stephen nos Serpentine Path?

É completamente diferente. Em Unearthly Trance eu era o principal compositor, estava não só com as vozes mas também com as guitarras sob o meu controlo. Nos Serpentine Path, o Timé o principal compositor e na maioria dos casos é ele que define os temas e a sua estrutura. Os UT eram uma banda de palco, que ensaiava a toda a hora e tinha um vibe muito mais orgânico. Antes da gravação propriamente dita já os temas tinham sido ensaiados e muito frequentemente tocados ao vivo. Por outro lado, os Serpentine Path são totalmente orientados para a gravação. Os ensaios foram esporádicos e os temas só foram trabalhados para a gravação, com a possibilidade de concertos a não entrar nas contas durante este processo. É bastante mais complicado estar numa banda com cinco pessoas do que num power trio. Enfim, resumindo a coisa, a única comparação possível na forma de operar das duas bandas é mesmo a secção rítmica ser exactamente a mesma.

Outra comparação possível seria o facto de seres vocalista e letrista em ambos os casos. Sentes que a tua abordagem à escrita de letras mudou ou evoluiu de uma banda para a outra? No caso concreto do Emanations, podes-nos dizer alguma coisa sobre os temas abordados?

 Sim, a forma como abordo as letras depende da banda com quem estou a trabalhar e escrever. Existem semelhanças, é certo, mas é simplesmente por ser o meu estilo de escrita. Nos Serpentine Patha escrita funciona mais como reacção minha ao som criado pelos outros e ao sentimento que retiro dele. Nos Unearthly Trance eu acabava por abordar a escrita a partir de um ponto de vista mais pessoal e oculto, já que sendo vocalista e guitarrista isso significa que era o principal compositor. No que toca ao “Emanations”, as letras seguem fortemente por um caminho de força adversa e postura contra a organização da espiritualidade. Odeio a ideia de humanos serem arrebanhados e controlados através de um processo de fomentação de medo. Há também algumas músicas sobre medo de um futuro totalitário de guerra global e dominação absoluta de uma única potência. Outro temas abordados são o navegar do subconsciente (um tema ressurgente nas letras que escrevi ao longo da carreira), uma alma torturada entre dois planos de existência e ainda há uma música sobre uma força extraterrestre que secretamente controla o planeta terra.

Saindo um pouco destas comparações, vocês deram recentemente os vossos dois primeiros concertos. Que tal correram, estão satisfeitos com a forma como o material se traduziu ao vivo?

Soube muito bem tocar ao vivo de novo. Tal como disseste, foi apenas o nosso segundo concerto e desta vez estivemos muito mais confortáveis e com mais energia do que da primeira vez, que foi logo após o lançamento do primeiro álbum. Qualquer um de nós tem muitos anos de experiência em palco e temos uma postura bastante séria do que diz respeito à forma como escolhemos o equipamento e abordamos um concerto, pelo que penso que o material soa igualmente pesado em palco.

No passado, afirmaram que estar em longas digressões não era algo que vos interessava muito. Ainda assim, dirias que há possibilidade de eventualmente tocarem na Europa?

Há alguma possibilidade de um raro concerto europeu. Tanto do ponto de vista logístico como do financeiro, teria de ser algo que fizesse sentido para os cinco e numa altura em que estivéssemos disponíveis. Não descartamos nada, mas tomámos a decisão de que os Serpentine Path são principalmente uma banda de gravações e é nisso que estamos concentrados.

Para terminar, quais serão os próximos passos dos Serpentine Path? Com os Winter activos de novo, imaginas ambas as bandas a tocar juntas?

 Em termos de Serpentine Path e num futuro ainda distante, deverá haver um terceiro álbum. Espero que consigamos evoluir ainda mais o nosso som, mas ainda estamos na fase de troca de ideais, ainda bastante longe de ir para um estúdio e montar as músicas. Duvido que algum dia toquemos juntos, se bem que dito isto até há uma boa possibilidade de ambas as bandas tocarem no MDF 2015! [entretanto confirmado] Não sei é se será no mesmo dia ou não.