Final de Rascunho, apresentava a folha distribuída pelos amáveis funcionários da Culturgest. Um risco, calculado e planeado. As músicas eram novas, ensaiadas apenas entre Sérgio Godinho e os seus Assessores e provavelmente irão entrar num futuro disco. Mas antes, temas como Vai Lá respiraram e mostraram-se na montra por excelência que é o palco. E portaram-se bem, muito bem.

Cheguei à porta da Culturgest com tempo suficiente para perceber que um homem do norte como eu vinha apenas atrás do Brilhozinho nos Olhos, ou não fosse essa a declaração de intenções amorosas mais atraente de sempre. Porque a ele (ao brilhozinho) ninguém escapa: eu, tu ou ele. Lá dentro, um auditório esgotado para ver o cantautor com o espólio mais liricamente povoado dos cancioneiros portugueses. Rodeado de instrumentos e música, coberto de palavras como só ele sabe e que usa para construir temas como mais ninguém. São palavras, senhores, são palavras, mas nada herméticas e milimetricamente dispostas sob os arranjos – essa palavra tão simples, mas tão ilucidativa da construção e pensamento musicais.

Mão na Música abre a apresentação. Spoken word sobre manta minimal rendilhada a pouco e pouco pela banda, tão ilustrativa como o título: deitar mãos à obra, fazer acontecer, acontecer fazendo, construir. Mas se a imagética forte da voz tão expressiva de Sérgio Godinho não chega, vemos projectadas em fundo fotografias da sua mão esquerda, «aquela que faz mais sentido, porque acho que é a mais expressiva das minhas mãos», explicou. Aliás, Sérgio Godinho foi bastante interveniente, com uma atitude quase professoral. Mas o professor Sérgio Godinho é aquele professor porreiro, que não hesita em responder a qualquer dúvida, gosta de mostrar trabalho, intervém quando quer, diz piadas, dança, destila classe e jovialidade e não quer saber da reforma para nada.

Aliás, a sua atitude de desprendimento e à-vontade é tal, que a projecção que ocupa o fundo do palco é o da secretária que montou em palco. Vemos as suas cábulas – afinal os rascunhos são ainda rascunhos e podem vir a ser retocados -, os seus óculos, os seus copos, o seu pensatório, o seu local de trabalho, enfim. Um à-vontade tão grande que o faz gracejar quando o suporte das letras cai, ou quando se esquece do microfone num suporte que não o que ele pretende, ou mesmo quando desata a criticar «Portugal, o único país onde se diz ‘só neste país».

E ele pode arriscar entre ritmos tropicais, andanças indie rock e passos da música popular portuguesa; como a fabulosa Faz Parte, «escrita a quatro mãos, por mim e pelo Zé Mário» Branco, esse senhor do FMI. Uma canção una, deliciosa, corridinha, como uma canção da folk portuguesa dos anos 70.  Presentes, ofertas, autênticas delícias inéditas que iriam culminar na emocionante participação de Bernardo SassettiCidade foi a valsa macabra (como lhe chamou Sérgio Godinho) que o pianista, o mestre, o excelso – perdoem-me, eu gosto mesmo dele – veio mostrar. Um espelho urbano autêntico que deu o mote para um aplauso ribombante e entusiástico e deu origem a um «venha de lá esse abraço» entre os dois ilustres. Sentido e emocionante, claro.

E que tal arriscar mais um pouco com o António Serginho, um jovem virtuoso do xilofone, que assistiu a esta aula do local mais priveligiado, depois de ter feito os arranjos para A Invenção da Roda? Experiência, a isto chama-se experiência. A mesma experiência que permite que haja aqui e ali uma palavra dita por engano, uma imperfeição num acorde, um desvario fora do sítio e que a sua aura continue impecável. Até porque as letras das músicas novas projectadas em fundo só fazem com que invejemos o seu domínio do tão criativo léxico português. É como eu costumo dizer, meus amigos: isto não é para quem quer, é para quem pode. Nós gostamos, esquisso, ou não.

Fica o apelo: para quando, senhores do governo, para quando o salto de Sérgio Godinho (e do seu imaginário) dos discos e dos palcos, directamente para as salas de aula portuguesas? É que já faz falta.