Mories dificilmente poderia ter escolhido um título mais apropriado para o seu segundo longa-duração sob a designação Seirom. Admita-se que a vertente luminosa não é exclusiva do novo trabalho, verificando-se também no excelente “1973” de 2012 e nos diversos EPs lançados, mas as proporções de beatitude atingidas por este “and the light swallowed everything” são francamente superiores.

Durante quase todo o disco, somos colocados numa espécie de animação suspensa, envoltos por uma nuvem de bela e tranquila quietude em forma de música. As mutações na paisagem são de uma admirável subtileza, facilmente imperceptíveis se for cometido o erro de relegar a actividade auditiva para segundo plano e ver assim desperdiçada a oportunidade de absorver totalmente uma obra cujos méritos dificilmente se obtêm em contactos superficiais.

Tudo o acima mencionado é válido para o antes e o depois de “Exhalted” mas não para a própria, já que durante o sétimo tema somos inapelavelmente arrancados da tal suspensão e impelidos para um intenso momento de catarse. O método de indução de êxtase é também ele de uma simplicidade desarmante: uma melodia de piano mantida durante todo o tema, primeiro sozinha e depois como luz solitária num turbulento crescendo de shoegaze.

Mais conhecido pela exploração de sonoridades extremas (sem qualquer pingo de hipérbole no uso do termo) e de tudo o que é horrível, o segundo disco que Maruice de Jong assina comoSeirom revela uma dose semelhante de intensidade aplicada na antítese estética daquilo que são os seus projectos mais conhecidos como Gnaw Their Tongues ou Aderlating. O músico holandês não está claramente interessado em meios termos, ou se induz o arrebatamento pela violência e pelo asco ou pela luminosidade levada ao extremo. O resultado é seguramente um dos mais belos discos que teremos a oportunidade de ouvir este ano.