Desde cedo se creditaram a Scout Niblett as mais variadas lembranças e ditas influências provenientes de tantas outras cantautoras. As referências até podem ser justificadas, contudo, tamanha injustiça não pode continuar a ser invocada por muito mais tempo. A britânica condensa o melhor de todos esses mundos, tendo a particularidade de nos dar muito mais de si.

Actualmente a trabalhar em novas composições e a desenvolver um estudo sobre o Fado em Lisboa, estreou-se no Teatro Maria de Matos naquela que terá sido a altura ideal. De facto, “It´s Up to Emma” precedeu a um conjunto largo de anos em que se suspeitava que nos vinha preparando para este momento. Um manual de fúria e raiva, mas também ternura e afecto, ou seja, um compêndio pessoal mas também transmissível.

De início sozinha em palco, “My Beloved” e “Duke of Anxiety” serviram para clarificar que nesta noite, as dedadas secas nas cordas, a sua presença e voz dificilmente poderiam ser esquecidas. Através de um pulverizar constante de emoções, numa espécie de relato directo e confessional, Scout Niblett colocou-se ao nosso dispor. Sentia-se a proximidade como se pudesse estar a dedicar a cada um a sua actuação. No fundo, uma forma de expressão que os nossos entes mais experimentados poderiam afirmar como tendo o coração perto da boca. Canta o que sente e exprime-se sem rodeios.

Apesar de ter contado em vários momentos com uma banda completa, acompanhada por violino, violoncelo, guitarra e bateria, a verdade é que no seu canto do palco, Scout provava que os grandes meios e destrezas instrumentais são muitas vezes dispensáveis e que o seu trabalho, repleto de conteúdos muitas vezes minimais, é muito mais grandioso e sentido desta forma.

Com “All Night Long”, “Gun” ou “Can´t Fool Me Now” o seu cerrar de dentes ganha nova forma, talvez por este ser o seu disco mais pessoal e que retrata a sua separação. Mas é com “My Man” que assumiu toda a particularidade e maturidade das palavras, ou seja, do íntimo que Emma Louise Niblett decidiu partilhar.

O regresso ao disco “This Fool Can Die Now” com “Your Last Chariot”, apurou o sentimento de intensidade constantemente presente e, mesmo quando pareceu perder a integridade e o controlo com sucessivos gritos, a sensação de ausência de ruptura foi total. Por ventura, porque se sentiu que por detrás de toda aquela agressividade com que tantas vezes encarou o microfone, estará uma singela, única, suave e pura personalidade.

Ainda antes de se retirar ofereceu “What Can I Do”, prova completa de redenção e que musicalmente melhor classifica aquilo que de mais verdadeiro Scout nos deu: um conjunto de conteúdos pessoais entoados nas mais variadas formas. Ora mais irada, ora mais cansada, ora mais amena ou confidente, o impacto das mesmas mostrou ser permanente e, provavelmente por isso, se possa dizer que o Teatro Maria de Matos recebeu uma das artistas que vale realmente a pena louvar.

Com “Kiss” e “Hot to Death” a estocada final foi dada, não sem antes se sentir legitimidade para depois de tamanha partilha, perceber que naquele momento a demanda pertence também a cada um de nós.