Sem o boné que há três anos lhe sombreou o olhar, Scott Kelly, de pé, fitou Lisboa. Nós, parte dela, não nos sentimos subjugados. O homem que em 1985 buscava conforto nas ressoantes caves de Oakland, desamparado na sua existência, faz questão de não transportar a altivez que lhe teimamos imputar. A espectral aura dos Neurosis, que resfolga numa dimensão que quase sempre nos parece paralela, é feita de calejados dedos. De tatuagens engolidas a cinzento pelo tempo. De acordes robustos, por vezes trôpegos. O errante strumming da sua guitarra sublinha que nele não há divindade, mas sim a ampliação da falha humana.

Distanciada, nos últimos anos, da apneia urbana, a diligência a solo de Scott Kelly transparece esse bucólico suspiro com que o campo afaga a introspecção. Ao embalo de um adorno em sombrio ponto, concedido pelas keys do irmão de armas Noah Landis, “The Field That Surrounds Me” imergiu a ZDB num definidor silêncio. Contrastante com a sofreguidão citadina, de ombros molhados pela chuva (a mesma que em 2011 dedilhou o tecto do Santiago Alquimista), a folk deambula em compasso lento; reflexivo, num ruminante andamento que resgata fantasmas do passado e alumia as incertezas do amanhã. Quando ela, a folk, acelera em “We Let The Hell Come” (originalmente escrita pelos Shrinebuilder), o clímax oferecido pelas seis cordas de Landis e as seis cordas de Greg Dale provoca na Galeria o mais convicto aplauso de toda a noite. “Lindo”, escuta-se nos recantos. Abalado novamente pelo conforto que Portugal lhe dá, Kelly agradece e atira, à eterna questão sobre a vinda dos Neurosis a este pedaço de terra, um sorridente “I don’t know”. E seria tudo tão mais fácil se não houvesse Espanha pelo meio.

O pé de igualdade em que o norte-americano se coloca, testemunhando que nele mais nada há do que a “inteligível linguagem” que todos compartilhamos – palco a palco, cidade a cidade, pessoa a pessoa – oferece-lhe a mortalidade essencial para que Lisboa se identifique. Consciente, dedica “We Burn Through The Night” não à sua, como habitual, mas à família de todos os presentes, precedida de um discurso que o sabemos irrepetível. Há soluços demasiados para ter sido decorado. “Eternal Midnight” e “Saturn’s Eye”, pregadas à beira do fim, atestam a pulcra contribuição dos The Road Home: a primeira, recém-nascida, revela-nos Noah atingindo a guitarra com um arco, num drone desmultiplicado, capaz de invocar figuras que na ZDB já transpiraram. A outra, colocada há cinco anos em “The Wake”, desenlaça um jogo de arranjos onde Greg Dale passeia, na suasteel guitar, melancolia.

No cair do pano, “Tecumseh Valley” de Townes Van Zandt. Surpreendido pelo facto de a plateia conhecer o falecido músico – “nenhum outro local se manifestou assim com esta cover”, disse –Scott Kelly recuperou uma das mais lúgubres composições do cancionário americano, num momento que ao sublime de 2011 só perdeu por não escutarmos a chuva, em acompanhante trote.

Que nos perdoem os Father Murphy, duo cruamente encantado pelas dissonâncias do experimentalismo, mas o seu noise tétrico não caiu bem na anunciada segunda parte surpresa. Futuramente, noutras circunstâncias suas e de mais ninguém, cá estaremos para lhes dar redobrada atenção.