Ainda nos lembramos da nossa primeira edição do Santa Maria Summer Fest, quando a entrada era livre e o cartaz apresentava as suas primeiras bandas internacionais: com maior assistência (como qualquer outro festival de entrada livre) mas também com muito mais por onde crescer. E cresceu. A edição do ano passado contou com mais bandas, melhores condições e um valor de entrada anti-crise (uns míseros 10/12 euros por três dias de festa brava). Para este ano as expectativas eram ainda maiores… e foram cumpridas.

A parceria com a editora portuense Lovers & Lollypops seria, para muitos, o bastião da alternativa aos géneros estilísticos que normalmente vemos presentes no festival, mas a organização doSMSF não anda a dormir e nem só de Lovers se fez a montra de diversidade. Para surpresa de muitos, o nome que provavelmente mais aplausos tirou do público foi Paulo Colaço, também conhecido como «o senhor do vídeo de apresentação do festival». Num espectro musical completamente oposto ao da maioria dos nomes do cartaz, a viola campaniça e o cante alentejano viram-se ali despidos de (alguma) tradição para melhor se embrenharem nos ouvidos mais cerrados dos metaleiros. De músicas especialmente compostas para o festival até à já conhecida “Moda Faca”, o reportório não foi alongado nem variado mas o contador de histórias alentejanas espalhou vários sorrisos pelas caras que o observavam, conseguindo até que alguns arriscassem um passinho de dança.

Necro Deathmort © Pedro Roque

Ainda em areias alternativas mas já próximos do espectro das sonoridades extremas encontramos os Necro Deathmort, duo britânico que lançou o ano passado “Martian Cartography” e que aposta numa mistura de electrónica, drone e noise no mínimo curiosa. Munidos de um computador, um baixo, uma guitarra e uma mesa cheia de geringonças de tortura sónica, a verdade é que dos presentes ninguém ficou indiferente e lamentamos apenas a impossibilidade de aumentar o volume aos níveis que tamanha destruição merecia.

Despise You © Pedro Roque

Caminhando já para o tradicionalismo, o powerviolence dos cabeças de cartaz Despise You não sendo, de todo, um género popular em Portugal (e no mundo) acabou por ser protagonista da maior enchente do festival (a par dos The Varukers no dia seguinte). A verdade é que a temática working class revolutiondestes tem tudo a ver com a inquieta Beja e todo o espírito do festival, e temas como “Passive Position”, “Culpa Mia” e “…Expectations” caíram que nem sericaia numa prestação que apesar de tímida revelou-se mais do que competente.

Os italianos Sedna, ainda que incógnitos para a maioria dos presentes, trouxeram consigo uma ambiência rara ao festival. A meia luz, com uma sonoridade a meio caminho entre um sludge mais cristalino e um post-black metal menos etéreo, a dificuldade de definir o que os Sedna fazem acabou por não ser impeditiva a assegurar um grupinho de resistentes ao frio e à chuva. Com bons apontamentos aqui e ali a verdade é que, talvez devido à duração um tanto exagerada do set, o concerto foi perdendo vitalidade à medida que se ia aproximando do fim, chegando a roçar o enfadonho.

Já os Warhammer, que fecharam o palco principal no último dia, são tudo menos desconhecidos do público português tendo marcado presença na edição de 2014 do SWR Barroselas. Uma das mais antigas bandas de tributo a Hellhammer no activo, conseguiram contornar o facto de já muita gente ter regressado a casa e ainda acaloraram a já fria noite para os que ainda se arriscavam a um moshzinho. Para os restantes, pouco ou nada nos ficou da actuação que já é só mais do mesmo desinspirado e sem grandes desculpas para rever, a não ser pela cover de GG Allin.

Warhammer © Estefânia Silva

E como não há Santa Maria Summer Fest sem um cabeça de cartaz punk, este ano coube aos The Varukers a tarefa de reavivar a tradição d-beat. Provavelmente o melhor concerto do género a que assistimos neste festival desde 2013, a energia de Ratcontagiou tudo e todos e o bom humor e empatia de todos os seus elementos relembraram-nos que um concerto, ás vezes, não é só música. De lamentar apenas a falta de respeito do público ao bonito tributo ao “king Elvis” que se podia ter desenvolvido em algo mais.

Corpus Christii © Estefânia Silva

Quantos a bandas nacionais, os Corpus Christii, acabadinhos de chegar da tour europeia de promoção do novo disco “PaleMoon”, provaram que quase 20 anos de carreira pesam numa banda… pela positiva. Bem oleados, sem esforços e sem grandes conversas foi assim que se apresentaram a Beja, agora com J. Goat como elemento permanente a acompanhar Nocturnus Horrendus num desfilar de ódio e apreço a Satanás com direito a bacanal de lascívia na audiência.

Vaee Solis © Pedro Roque

Os Vaee Solis, que já marcaram bem a sua posição com “Adversarial Light»” voltaram a encher-nos as medidas e desta vez até tivemos direito a “Feral Isolation” no original, com Pedro Roquena voz, a abrir. Aos Alchemist foi confiada a tarefa de substituir osMother Abyss e, para abono da verdade, a falta não se fez notar entre os presentes. Os discípulos portugueses dos Celtic Frost até nos agraciaram com uma cover dos mestres, “Procreation (of the Wicked)”, com a ajuda vocal de Bruno Boavida (ex-Lifedeceiver) e Pedro Roque (Vaee Solis, ex-Besta), deixando-nos apenas com ânsias de novo material que parece tardar em chegar.

Vaee Solis © Pedro Roque

E para o ano há mais.