Não há coincidências, sempre ouvi dizer. Pensar que o papa Bento XVI se vai demitir no mesmo dia em que os Rorcal editam Világvége não me parece obra do acaso – mas parece-me óbvio que o negrume do novo álbum da banda suíça vai dar que falar. Duro, pesado e denso, agressivo e caótico, o novo tento deste doomsters com afinidades claras com o black metal testa as nossas capacidades para aguentar blast beats, riffs super-arrastados e todo o tipo de descrições sónicas de megeras e sofrimentos, sem se limitar a um mero exercício estilístico.Világvége é, já, um dos statements do ano.

Ainda que o percurso dos Rorcal, com discos em que a linguagem melódica do black metal se adapta aos tempos gratuitamente “vio-lentos” do doom, seja prometedor, há que admitir que as fronteiras da banda e dos géneros por onde se movem foram expandidas neste novo álbum. Músicas como V demonstram uma capacidade para pintar o caos com uma precisão assustadora, enquanto malhonas como IV (ou, até, a sua continuação natural, VII) têm num black metal estilisticamente perfeito e by the book linhas de guitarra de uma agonia surpreendente.

Világvége encerra, por isso, um percurso de evolução sonora com uma qualidade rara, mostrando que os outros registos não foram em vão. Contudo, a força deste novo álbum não reduz os Rorcalao seu próprio campeonato e coloca-os num radar entre outras bandas, que têm no black metal, mais do que um limite canónico, uma linguagem para explorar sensações e melodias novas. A lentidão estratégica deste disco, adensada em tremolo pickings e blast beats, encontra em VII, por exemplo, uma malícia inédita e uma força surpreendente, de resto amplificada com recurso aos interlúdios, tensos, em canto gregoriano – o pormenor que acaba por envolver o disco numa coerência que tem o negro, o pesado e o perturbador como essências.

Não há coincidências, mas também não há tréguas. Este novo tento do Rorcal vai atingir os fãs de música pesada, propor transversalidades e cruzamentos estilísticos. O muito rápido e o muito lento nunca ficaram tão bem juntos.