Ao segundo dia, novo início plácido na Het Patroonat. Desta vez, Wino, acompanhado por Conny Ochs, mostrou também ele a sua face mais folk/fingerpicking, num concerto que nos recolou no mindset Roadburn e nos preparou para aquilo que se afiguraria como, talvez, o melhor dia de todo o festival. /EP

Versados nas linguagens do black metal, os Nachtmystium subiram ao palco do Main Stage com um plus one muito querido do festival – Sanford Parker, baixista dos grandes Minsk, no papel de teclista. Com um concerto dual, em que as primeiras músicas se aproximaram mais da riqueza melódica do black metal, a meio do concerto os norte-americanos haviam de se virar para os ritmos e riffarias menos belos, de género mais de matraquilho do que de pimbolim (que é como quem diz que não deram show de bola a ninguém, mesmo depois da exibição da primeira parte a levar os pontos todos). Nós abalámos para outras paragens. /AF

Esta opção não foi tomada sem antes se espreitar os End of Level Boss, na antiga Batcave do Popodium, agora conhecida como Stage 01. Com riffaria da grave sempre a martelar os ritmos mais típicos do metal progressivo, à moda de uns King Crimson chateados com o mundo em geral e toda a gente em particular, a banda londrina conseguiu, contudo, dar uma tónica divertida à actuação com a sua postura de avacalho. /AF

Os Farflung trouxeram à cidade holandesa o seu space rock de tinturas bem psicadélicas, onde Tommy Grenas, o vocalista, é a personagem central. Suando em bica, o tipo esbraceja, berra, sussurra, revira os olhos e brinca com os sintetizadores com uma naturalidade impecável, fazendo quase acreditar que a banda é ele e mais uns quantos a fazer o papel de ornamento. Uma das personagens do festival, com toda a justiça. /EP

Foi no peso desta descida de qualidade que se abalou para fora da 013 e em direcção ao concerto dos Hexvessel, no anexo da igreja que ficava do outro lado da rua. Com uma soul mesclada com a folk e com a precisão de tempos do doom, os norte-americanos conseguiram aplicar o silêncio numa igreja, apresentando-se perante uma hoste de crentes na sua mensagem, sedenta por ouvir mais. /AF

Os Sólstafir entraram a cavalo, de chapéu de cowboy e armadura negra (figurativamente, ao contrário do resto) para mostrar que o improvável não é impossível. Sempre com a folclore norte-americano como motivo principal da sua actuação, a banda islandesa confrontou-o com o peso do black metal no que seria um concerto emotivo e francamente contagiante, em muito focado na voz do frontman Addi. Protagonizando o concerto mais longo do festival, a banda percorreu o novo Svartir Sandar de lés a lés perante uma audiência rendida. /AF

O Roadburn, apesar de estar cada vez mais disponível para novas sonoridades, continua a ser o espaço tradicional do doom/stoner… Tradicional. Neste campo, os Witch, apesar de nascidos em 2005, dão cartas e concederam uma exemplar demonstração de bom jogo na Main Stage. Do topo da sala (e quando é lá do topo, é lá do topo mesmo, onde temos direito a uma panorâmica e “breathtaking” visão de toda a arena), era perceptível a boa concentração de gente durante o concerto dos norte-americanos, prova de que Tilburg ainda é a casa-mãe do riff. /EP

Residente no Het Patronaat, Justin Broadrick sentou-se na sua secretária para mostrar o projecto Final, uma electrónica experimental, em que o ritmo e a melodia se antagonizaram até à perda de consciência. Um momento de pausa para quem buscava um dia cheio de sujidade. /AF

E chegaria a vez dos cabecilhas da noite: Yob, que tinham em mãos a tarefa de tocar na íntegra The Unreal Never Lived. Toda a gente sabia como é que o concerto ia começar e como é que este ia acabar – mais importante ainda, era consensual que a distribuição de porrada sónica, com o riff como principal arma, seria democrática e, pior um pouco, totalmente massificada. Mesmo com preparação feita em Portugal, no passado mês de Outubro, um treino duríssimo, Mike Scheidt e companhia não se coibiram de ser uns verdadeiros javardos e de entrar a pés juntos. Como seria esperado, Quantum Mystic foi uma verdadeira palhaçada, do início ao fim, e doeu de uma forma que só seria possível num Main Stage artilhado com uma pré-amplificação absurda. Mas não houve um nariz torcido: a quantidade de headbangs não podia indicar outra coisa que não devoção total da audiência e os gritos nas pausas estratégicas da música mostraram o quanto se ansiava por aquele momento. Cerca de quarenta minutos depois, o trio foi simpático o suficiente para presentear a audiência com um belo extra chamadoAdrift in the Ocean, do mais recente Atma, a coroar uma performance para os mais duros de pescoço. /AF

Pelos corredores da histórica 013, conta-se a lenda de que os Trap Them, em 2011, despoletaram o primeiro mosh numa edição do Roadburn. Nessa moda que junta a badalhoquice do sludge, a cavernosidade do doom e a rapidez do punk hardcore ferido e encrostado, também os Black Breath são cimeiros barbudos. De raíz igualmente vincada no death metal sueco, os homens que andam a percorrer o mundo com Sentenced To Life às costas chegaram à Green Room e o que lá se viu durante três quartos-de-hora entrará para as páginas douradas do festival holandês. Escandinavos de dois metros de altura e britânicos do crust (que estavam de propósito em Tilburg para ver os Doom) em mosh afincando, por entre um banho de suor, rastas e stage divers que saíam disparados do backstage. Feast of the Damned ou a senhora do groove I Am Beyond serviram de móbil para a primeira de duas batalhas campais do dia. /EP

Numa tentativa de relaxar a cabeça, houve quem procurasse a acalmia dos Barn Owl, que actuaram num aspecto totalmente diferente da densidade que se pode conseguir através do som. Fazendo uso das camadas, das melodias longas e indecifráveis, a dupla composta por Evan Caminiti e Jon Porras atacou o subconsciente levando ao knockout técnico os que tiveram coragem de tentar a combinação doom-drone que os Yob e os Barn Owl concretizaram. /AF

Ainda de respiração ofegante, soube bem regressar ao topo da Main Stage, onde os Voivod, curadores deste dia 13 de Abril, ofereciam a primeira de duas actuações no festival. Bonito ver a sala cheia, enquanto se bebia uma cerveja ao som de Astronomy Domine, cover dos Pink Floyd escolhida pelos canadianos para brindar o público – e uma sensação de déjà vu, já que no SWR Barroselas Metalfest de 2011 também os Voivod fizeram questão de homenagear os belos primórdios dos londrinos, onde Syd Barrett era o mastermind. Falando em covers, e descendo as escadas, era possível escutar a descarga doom dos Dopethrone (captain obvious… Com este nome, haveriam de tocar o quê?) e uma versão bem pesada de Ain’t No Sunshine de Bill Withers. Vê-la, por outro lado, era bem mais difícil, já que a fila para entrar na Greem Room estendia-se até à banca da comida, obrigando por isso a uma visita até à Stage 01. Ainda a meio gás, foi possível escolher um bom spot e observar dez minutos daquilo que osHuata são capazes: doom bem psych, alicerçado em Atavist of Mann, um dos melhores álbuns de 2012 no género. /EP

Para encerrar a sessão de concertos do segundo dia do festival, estavam destacados os Celeste e os Doom. A banda francesa pôs-se desde logo à vontade, apagou as luzes e ligou a máquina de fumo para surgir em palco com lanternas vermelhas na testa e dar um dos concertos mais agressivos do festival. Agressivo não só pelo ambiente hostil que conseguiram criar na Green Room, à pinha, mas pela entrega com que deixaram suor e sangue no palco, levando, certamente, alguns mortos como prémios para apresentar aos deuses profanos que procuram santificar com as suas mortificações sónicas e actuações pecaminosas. Foram, sem dúvida, os 35 minutos mais duros do festival para este peso pluma tuga, que foi para lá passear a barba mal semeada – uma injecção super-concentrada de porrada. /AF

O final de noite, contudo, estava reservado para a singular Het Patronaat. Ao entrar, era palpável a tradicional tensão antes de um grande momento e ela andava estampada nos rostos de gente que vestia  t-shirts de Amebix, Nausea, Phobia e… Doom. E foram estes, os Doom, que à meia-noite e meia arrancaram com Fear of The Future, provocando desde logo uma torrente de empurrões e stage dives – um dos que se lançou (e também foi empurrado pelo vocalista dos britânicos) foi Mike Scheidt, integralmente devoto a uma das mais lendárias bandas de crust da história. À frente do palco, por entre miúdas já quase só em roupa interior, era possível contemplar uma imagem que provavelmente jamais se repetirá: os Doom a desferir malhas como Claustrophobia ou Police Bastardnum altar de uma igreja. Roadburn, what else? /EP