Há sensivelmente um ano atrás, quando os A Thousand Words integraram o lote de opening acts do concerto de Shai Hulud, o PA’ não arriscou por aí além ao afirmar que os algarvios seriam, a curto prazo, um dos grandes nomes da cena portuguesa de hardcore. Ontem, impulsionados por um EP que promete figurar nos melhores registos de 2012, os A Thousand Words combateram o cansaço de quem percorreu Portugal num fim-de-semana e colocaram as suas credenciais em palco: hardcore de sombrias fundições, onde os melódicos e agressivos riffs se assumem como ponto de equilíbrio entre a dissonância e a harmonia. Se este é o sangue novo do hardcore português, então não há razões para nos preocuparmos quanto ao seu futuro – até porque ele não olvida o passado, ou não tivesse o quarteto recuperado Absentee Debate dos Unbroken.

De outra geração, e com um passado individual que fala por si, os We Are The Damned apareceram em Cacilhas acompanhados de Mike Ghost numa das guitarras, decididos a aproveitar a sua meia-hora de actuação para tocar somente temas de Holy Beast. Apesar do som demasiado alto, que conduziu a momentos de quase impercepção, a solidez do grupo, conferida por actuações que já se estendem além fronteiras, não lhes permite dar maus concertos. O death n’ roll de raízes crust poderá não ter sido o condimento mais óbvio para a matiné em Cacilhas, mas a qualidade que patenteia é inegável, razão suficiente para saírem do Revolver sob aplausos.

Dando um nó cego ao que era expectável, os For The Glory decidiram começar como habitual fecham. Survival Of The Fittestmarcou o início de um concerto que, não atingindo os níveis de impetuosidade de outras passagens por Cacilhas, voltou a provar que o grupo é quase sempre um vencedor à partida. Até porque não é tarefa fácil suster o convite dos grooves e breakdowns de malhas como Fail MeFall In Disgrace e uma Drown In Blood que teima (e bem) em colocar várias gerações no mesmo pile-on, como que a comprovar que unânime é o adjectivo que melhor descreve os For The Glory. Pelo meio, tempo ainda para ouvir Life’s A Carousel, do novo split com os germânicos World Eater e para justas palavras de homenagem à Escola da Fontinha, antes deSome Kids Have No Face ecoar pela sala da Margem Sul.

Numa actuação relâmpago (mais dez minutos de concerto não teriam caído mal), os Rise and Fall deixaram bem claro qual o comprimento de onda pelo qual se orientam. Deceiver, do muy abrasivo Faith, serviu de disparo inicial para uma banda que faz do pétreo e encrustado hardcore a sua munição principal. Tanta rispidez e distorção acabou por levar o som do Revolver novamente ao ponto da exaustão e mesmo malhas do antigo Into Oblivion acabaram por ficar prejudicadas por uma acústica demasiado imprecisa. Cada vez mais longe do uso de breakdowns e outros ganchos que marcaram Hellmouth, o seu disco de estreia, os Rise and Fall não conseguiram despoletar o caos (tirando, lá está, quando recuperaram a imortal Bottom Feeder), mas crivaram, sem margem para grandes interpretações, as garras de uma banda que está à beira da mestria na arte de incorporar elementos sludge e crust no seu férreo som. O fecho com a pesarosa Faith / Fate ilustra aquilo que os belgas são e não é de surpreender que a Deathwish Inc. tenha nos Rise and Fall um dos seus maiores trunfos.