Vagueando pelo recinto no segundo dia, vislumbram-se claramente menos pessoas, e não, não é por ainda estar sol e ser cedo. Sleep é que trouxe muita gente até Valada. Vamos até à praia para refrescar e matar a sede, quando nos deparamos com The Jack Shits. O vocalista Jack Leg emana uma força animalesca que o faz trepar andaimes e correr pelo palco. A sua postura desenfreada e o seu timbre esganiçado-garage-punk recordam-nos os sempre importantes The Parkinsons, também eles pouco dados àquela pasmaceira do remanso ribatejano. Foi punk de small club num cenário de larga escala.

Depois disso, andámos com os 10 000 Russos, que iniciaram on time a sua jornada mirabolante. Tudo lhes acontece de forma natural, onde pela cadência ébria conduzem quem lhes fizer companhia a um caminho desconhecido e inquietante. O baixista concentra-se e perde-se na relação intensa consigo mesmo, como se estivesse isolado qual átomo solitário, distribuindo intensidade e envolvência ao momento; o guitarrista petrifica-nos o pensamento com os efeitos de uma pedaleira garganeira que dá tudo o que tem; o vocalista-baterista enche o peito para ganhar fôlego e liderar a oração tribalista a desenrolar-se durante quarenta minutos que poderiam ter sido o dobro. Embora menos tenso, ao lado, o espectro português, estende-se para as chaminés do Barreiro – o rock n’ roll a três guitarras dos The Act-Ups vai bem para terminar aquele final de tarde, com os cumprimentos de Chuck Berry.

 

Anoitece com Joel Gion & Guests. Assim, surrateiramente sete músicos sobem ao Reverence e assumem as suas posições, todas elas diferentes e de uma enorme diversidade instrumental.  De matracas na mão, calças à boca-de-sino, patilhas vincadas e de gorro – sua maior imagem de marca – destaca-se o homem que também é tambourinista nos The Brian Jonestwon Massacre.O ritmo brando e sereno marcam o registo de todo o concerto, havendo espaço quanto baste para bossa-nova e para umatropicalia envergonhada que quebra o ritmo e enche os cafés das redondezas – até porque o futebol não perdoa e o Joel não entusiasma.

Lua e barriga cheias para os tão esperados Amon Düül II. Os pais do krautrock – se bem que esta paternalidade divide-se por uns quantos progenitores da velha e dividida Alemanha – revelaram ter a genica suficiente para um concerto que só poderia ser de memórias e boas recordações vindas de lutas políticas e experiências sensoriais. Mantêm o “Cerebrus” polido e colorido – aRenate Knaup é um arco-íris de teatralidade de ornamentos vários e Chris Karrer, entre todos os músicos, a serenidade numa guitarra que já viu de tudo e num violino com histórias para contar. Se foi especial ver Hawkwind em 2014, não foi menos encontrar estes alemães assim tão bem.

Aproveitámos o embalo para nos perpétuarmos pela febre deCalibro 35, num registo um pouco diferente do que estivemos habituados ao longo do dia. Cinco meninos italianos a deslindarem as cordas, percursão e teclados como uma espécie de maratona rítmica funk, revelando movimentos epilépticos na sua linguagem corporal. Construíram o ambiente perfeito para um filme mudononsense – há, a meio do concerto, quem traga a sua cadeira de realizador para se sentar no meio da plateia e assistir de poltrona ao que se vai sucedendo.

Os The Horrors foram os escolhidos para fechar o palco principal em 2015. Começam com “Mirror’s Image” e a clássica “I Can See Through You”, sempre com a sisudez e com a introvertida compenetração de uma banda que nunca se importou com o calor humano. À mercê de um post-punk de inverno em horas de verão, entramos em “Who Can Say”, e o Faris Rotter lá continua com os cabelos nos olhos, sem grandes efusividades, nem movimentos eloquentes. Mas precisa? Não, nem os The Horrors são menos por isso. Elegem “Still Life” e “I I See You” para finalizar o seu repertório que nos limpou o palato do prato principal psicadélico que o Reverence serve em constância. Viriam logo a seguir osElectric Moon para compensar madrugada adentro.