Formados em 2011, este foi o ano da estreia dos Revengeanceem trabalhos de estúdio. Primeiro com John Q. CitizenNorth/South Go!, uma demo e um split com Tinnitusrespectivamente, ambos editados em Março pela Degradagem, e mais tarde com o EP Complacent Complacency, acabado de sair numa edição conjunta entre a Degradagem e a Ruins Records. Seria um caso surpreendente de uma estreia em cheio, não fosse o line-up da banda. Projecto jovem ou não, espera-se qualidade de quem tem membros de Utopium, Löbo e Corpus Christii, entre muitos outros. Assim, também impera que se diga que a música apresentada faz jus aos nomes que a assinam.

A mais imediata novidade no powerviolence do quinteto será mesmo a presença de uma voz feminina, a cargo de Inês. Esta destaca-se principalmente na demo: tem uma certa irreverência que assenta que nem uma luva ao som praticado, funcionando particularmente bem em momentos como o final de End It Already. É relativamente simples, sim, mas é mesmo nessa simplicidade de processos que John Q. Citizen tem a sua força. No EP perde algum protagonismo para a voz masculina, assinada por Fat Bastard, que sendo mais fácil de encontrar atrás de uma guitarra ou baixo noutros projectos, se revela aqui exímio na fina arte de berrar. Ao contrário da sua contraparte feminina, é quando a agressividade aumenta que a sua voz encaixa melhor.

Apesar dos dois trabalhos não distarem muito um do outro em termos de gravação (as vozes, por exemplo, foram gravadas no mesmo dia), são razoavelmente diferentes entre si. O primeiro é mais imediato, menos negro e vinca mais o lado punk da banda, algo evidente por exemplo em Amor Perro ou no tema título. Tendências essas que são postas de lado à bruta ao fim de 50 segundos de Model Citizen, no fim da qual se ouve um mais que adequado “surprise motherfucker!”, dando o sinal de partida para a descarga de 10 que compõe o EP. Há ainda dois temas que valem a pena destacar, ambos do segundo lado do EP (o primeiro acaba com cover bem interessante de Void), nomeadamente Army of None e Pictorial Representation of Faith, a primeira porque ilustra a forma como as duas vozes se complementam num ambiente mais extremo e a segunda porque tem o melhor instrumental dos dois lançamentos, sobretudo o riff fantástico que entra aos 30 e poucos segundos.

Tendo em conta o estilo musical em questão, não será novidade para ninguém que as letras tenham uma certa dose de crítica social. Sobretudo no que toca a Complacent Complacency, a postura vai além de um “eles contra nós” algo primitivo e, como o título do trabalho sugere, assenta mais num confrontar dum estado apático (ou complacente, como preferirem) em que encontram o mundo. O facto de não apresentarem os problemas como algo exclusivamente externo, proveniente de uns indefinidos “outros” pode parecer apenas um pormenor, mas é justamente aí que muitas vezes está a diferença entre coisas com pés e cabeça e queixume idiota. Como também não é gente de se levar demasiado a sério, nada como ouvir o já clássico comentário “Oh my god, who the hell cares?” no final de Druken Dialects.

A qualidade com que enfiam bujarda atrás de bujarda nos vários registos só pode ser louvada: pausas para respirar só mesmo quando há samples, cuja quantidade está um bocado no limite entre cumprir o seu papel e tirar atenção das músicas, felizmente encontrando-se do lado certo do mesmo. Com tudo isto, resta dizer que no final de 2012, os Revengeance tornam-se, sem margem para grandes dúvidas, num dos principais nomes a ter conta nos territórios mais brutos do punk/hardcore nacional.