Lixe-se quem andou estes últimos meses a queixar-se da ausência de calor. Com receio o PA’ se aproximou das portas do complexo desportivo de Corroios, culpa da noite a acariciar em contraste com fustigante sol e as cervejas geladas do café ao lado. Lá dentro, mesmo antes de se chegar ao salão, entramos noutra dimensão. Noutro planeta, até. Um planeta muito perto do sol, por certo. A fila para as senhas de cerveja inibem qualquer um. Ainda assim, os corajosos são imensos. Diria mais, todos os presentes nesta noite (que são muitos, está casa cheia) são verdadeiros resistentes. Principalmente quem está desde a abertura e já ajudou a deslocar as placas tectónicas do recinto, juntamente com os ChallengeUtopium, For The Glory e os Switchtense, na criação de  atmospera espessa, tórrida, vaporosa, quase irreal. Os veteranos Simbiose queimam os últimos cocktails crust da sua actuação, que ontém igualmente anteveio os pioneiros do punk hardcore da america-latina no Hard Club.

Demandada geral lá para fora: o estádio de Corroios já terá certamente tido dias de jogo menos povoados. Corpos brilhantes. Se fosse necessário atribuir uma palavra ao que se passa hoje aqui essa palavra seria: suor. Toda a gente de copo na mão e um queixume repercutido um pouco por todo o lado. A temperatura do líquido não satisfaz, no entanto, é imperativo manter o corpo hidratado. E a cabeça embriagada, naturalmente. Quando as luzes se apagam, é dada a demandada inversa. A entrada essa, é sem qualquer cerimónia e com João Gordo a uivar um aportuguesado ‘Boa noite Lisboa!’. Vozes insurgem-se, gritam:’Margem Sul!’. O que vai acontecer já é sabido: serão quase 30 anos de carreira alinhados em 30 insurectas malhas. Crucificados pela Sistema é chamado desde 1984 com Sistema de Protesto e Corrupção. Recordando-nos que a evolução desde então é TVs fininhas, internet e telemóveis que tudo fazem. Com Gordo a referir-se à situação tumultuosa que vive o Brasil actualmente: “O que tá a acontecer no Brasil é fixe, pá. Mandar os corruptos pra cadeia, foda-se! Vamos mandar os corruptos de Portugal pra cadeia também?!”

Os convivas vão passeando pelo palco e revedo-nos que João não gosta lá muito de abraços – este dá um ’empurrãozinho aos invasores’ que o tentam, impulsionando-os para a asfalto humano.Eu não sei – malha cover dos pioneiros do punk tuga Aqui-del-Rock, é chamada num trovejar endiabrado que irá anteceder de tacada a Guerra Civil Canibal. A agressividade está em altas mas o circle pit não é estonteante. Mais que compresenssível, e é conveniente congratular a malta por este nunca ter cessado. Por clemência e depois de alguma insistência o pessoal do estádio deixou que as portadas ficassem abertas. A malta agora pode ir respirar e voltar para dentro. Mesmo à porta se sente o ambiente interior, no ar vagas de calor abafado e de odor característico, vão circulando. A violência íntrinseca do ser humano pela ordem estabelecida é lançada com o hino – Crucificados pelo Sistema. Lá à frente só se vêem é braços e pernas, cá atrás dá para sentir um agradável ambiente de dissidência, enquanto João Gordo lança a sua gargalhada cheia de escárnio e descrença.

Poder-se-ia dizer que este foi o mote para o primeiro encore, mas na realidade não chegou a haver saída de palco, João Gordoapenas se sentou, enquanto Jão, Juninho e Boka incutem um ritmo funky que, quando Gordo se ergue transforma-se no somFuma Bebe. A auferir o primeiro e único momento slow, numa performance quase rap de RDP, onde o baixo é um sample deAnother One Bites The Dust. Claro que, após este momento de descanso, o ritmo acelarou-se exponencialmente com nova chamada do álbum de estreia para Morte e Caos, tocadas de rajada. Saída de palco, demorada. Passaram-se uns quinze minutos até que Jão surge em palco dizendo que ‘o Gordo tá muito mal mas vem aí’. E veio, o que faltava já todos sabiam – Periferia foi cantada por toda a sala num ambiente de comunhão bonito de ser presenciado. Uma grande visita dos veteranos do punk hardcore brasileiro, continuando a sua missão a levar insurreição onde quer que vão.