Nos dias que correm, a Galeria Zé dos Bois não só já se mune de ar condicionado, como também faz usufruto de uma série de cortinas nas suas icónicas vidraças – aqueles momentos em que o olhar de um artista se cruzava com um qualquer transeunte alcoolizado, de cara espalmada no vidro, parecem já fazer parte do baú de memórias do espaço lisboeta. Ainda assim, se durante Process of Guilt essas densas cortinas tivessem sido retiradas, a diferença seria pouca ou nenhuma.

De FÆMIN em punho, o quarteto português soergueu-se na penumbra, o seu habitat por natureza, onde uma funesta atmosfera se desenhou e se encorpou a cada balançado riff. Um chagado ambiente, capaz de por si só fazer frente a qualquer interferência exterior. Mesmo que o luzidio (e paradoxalmente deslavado) Bairro Alto em modo sábado à noite tivesse o desplante de distrair ou retirar dimensão à besta que os Process of Guilt vão delineando em palco a cada música do seu novo álbum, os seus esforços ver-se-iam gorados.

No fundo, essa é a grande vitória que uma banda como PoG pode almejar quando decide entrar em cena. Para lá do peso e de uma sova rítmica tão amarga quanto bílis (aquele final da FÆMIN, que foi também o final de concerto…), o derradeiro içar da bandeira é feito quando se consegue despertar um sexto sentido naqueles que ao concerto assistem. Um sexto sentido capaz de subtrair importância a noções de espaço ou tempo e, por outro lado, concentrar hipnoticamente as atenções numa belicista demonstração musical, feita de feedbacks, suor e de uma crueza instrumental que não deixa espaço para interrogações. Missão cumprida. /EP

Antes do doom de os Process of Guilt tomar conta do Aquário, os presentes na ZDB recuaram no tempo até um ambiente setentista para receber os A Tree of Signs. Durante pouco mais de meia-hora, o trio composto por V-Kaos (teclas e voz), NH (baixo) e P. Tosher (bateria), tocou um stoner que tem tanto de macabro, como de psicadélico. É um projecto recente, é certo, mas a experiência dos membros dá uma certa segurança a estes primeiros passos enquanto banda – NH é o homem por detrás de Corpus Christii, por exemplo, e a sueca V-Kaos também faz parte de vários projectos, entre eles Mother of the Hydra. O som não é propriamente original e a banda sabe que aqueles ritmos mid-tempo, graves, debaixo do orgão, que imita bandas sonoras de filmes de terror de outros tempos, já foram feitos muitas vezes. Mas isso não retira mérito a este projecto, que deve ser seguido de perto daqui em diante. /VBP