O Outono chegou, o frio e a chuva começaram a instalar-se, e com eles chegou a nostalgia – estamos, definitivamente, fora da época dos festivais de verão. O Amplifest, por outro lado, ainda está fresco na memória e deixou-nos, pela terceira vez, desejosos de mais. Este ano tivemos a oportunidade de nos despedir novamente, sem falinhas mansas, sem a delicadeza de uma Chelsea Wolfe ou a introspecção de thisquietarmy. Esta Post Session queria-se bruta, sem desculpas para não libertarmos as energias que recuperámos desde Putan Club. Assim o foi.

Os primeiros 20 minutos de Hacride foram bons, muito bons. Quase tão bons como a avaria da ponte móvel de Leça, o trânsito à entrada da A28, a tempestade que se abateu sobre o Porto, e o atraso dos STCP que nos usurpou o início da noite. Quando chegámos ao Hard Club deparámo-nos com uma Sala 2 muito bem composta, qual dia 3 do Amplifest. Pudera: feitas as contas, estávamos a pagar dois euros e meio por banda, e não eram quatro bandas quaisquer. Os Hacride eram certamente o nome mais frágil do cartaz, mas apenas por culpa da nossa ignorância – o conjunto francês provou ter aprendido bem as lições da escola de Umeå, juntando aos ritmos meshuggianos alguns laivos de metalcore despidos do mau gosto que tantas vezes acompanha esse género. Cada batida da portentosa tarola era uma ordem de headbang, e o público aquiesceu.

A neblina que preencheu a sala de seguida só nos pode levar a crer que os Tides From Nebula levam muito a sério o seu nome. Não víamos mais do que meras silhuetas quando os músicos recuavam no palco, e a atmosfera onírica que se criou provou desde logo porque é que não faria sentido ter este concerto na Sala 1. Claramente num limbo musical, é difícil descrever a sua sonoridade como post-rock sem torcer o nariz. Os tappings das guitarras relembram Russian Circles, a energia de algumas músicas recorda-nos os God Is An Astronaut, e as composições mais longas não se limitam à melancolia contida até um crescendo grandioso – contemplativos mesmo na alegria, os Tides From Nebula não constroem sentimentos, constroem histórias. Tanto o momento como a duração do concerto foram bem escolhidos, pois todos sabíamos o que aí vinha e tivemos tempo de nos preparar. “The calm before the storm”, como gostam de dizer os anglófonos.

Os Shining são um caso complicado. Banda de jazz que se virou para o metal, incorporando um ou outro elemento do seu passado na nova faceta, lançaram em 2010 um aclamado “Blackjazz”. O seu sucessor, porém, chegou este ano e dividiu opiniões, mas temos de admitir que há em “One One One” alguns momentos incrivelmente maus. O curioso é que, ao vivo, o mau é bom, e uma faixa como “The One Inside” criou um momento algo bizarro onde os mais dedicados headbangers possuíam, em simultâneo, um largo sorriso na face. Sem qualquer pretensiosismo ou elitismos, não têm vergonha em fazer música que entretém. Para quê fazer distinções entre gostar e gostar ironicamente, se o produto final é o mesmo? O público estava entretido, a banda estava maravilhada com a recepção na sua estreia em Portugal, e mesmo o solo de saxofone, qual desafio à paciência dos metaleiros mais ortodoxos, foi recebido com a mesma aprovação que qualquer outra faixa. No entanto, e apesar de “Fisheye” ter surgido bem no início da setlist, o momento alto do concerto situou-se na recta final, com a interpretação (mais do que uma cover) da “21st Century Schizoid Man”, dos King Crimson. Tudo nos Shining foi brilhante.

É ao vivo que os The Ocean se sentem como peixes dentro de água (e já chega de trocadilhos). Os motivos que levaram dois membros a decidir abandonar a banda aparentam não ter qualquer ponta de ressentimento a nível pessoal e o grupo alemão era de facto um colectivo, como se autodenominam. Em tons de azul, submergindo-nos em “Pelagial”, os alemães demonstraram que o seu sexto álbum foi concebido a pensar em volume e agressividade, elementos que resultam habitualmente melhor ao vivo, não sendo esta uma excepção. Loïc Rossetti canta no fundo do palco, fundindo-se com os vídeos projectados, mas cada explosão sonora era um pretexto para uma investida em direcção ao público. Cedo começaram os stage dives, a formação de mosh pits, e a irrequietude de Jona Nido a levá-lo para cima dashardcases, movendo a guitarra em direcção às colunas do Hard Club para novas cargas de feedback. Houve ainda espaço para um regresso ao palco de Luiss Roux, vocalista dos Hacride, mas, em boa verdade, todo o público acompanhou a voz de Loïc do início ao fim do concerto. Por muito bom que seja “Pelagial”, o álbum é relativamente curto, sobrando assim tempo para revisitar o passado da banda num encore. Aí sim, terminou o Amplifest, e não há nada a dizer a não ser “até para o ano”.