Ter na nossa mão um bilhete que diz Pop Dell’ Arte é quase sentirmos o peso da história musical portuguesa a passar-nos entre os dedos. Ontem, em Aveiro, esse peso tornou-se em leveza quando uma casa quase esgotada parou para ouvir a banda de Campo de Ourique.

Não foi sem algum atraso que os Pop Dell’Arte subiram ao palco principal do Teatro Aveirense. À sua espera, uma boa centena de pessoas aguardava, com expectativa, o regresso da banda de João Peste à cidade dos moliceiros. E ninguém saiu desiludido.

Num ambiente potenciado pelas luzes sombrias, começamos a ouvir alguns sons tribais e o espectáculo arrancava com Ritual Transdisco, o single de avanço de Contra Mundum. Num concerto de quase duas horas, a máquina de tempo encarnada porPeste levou-nos a temas como My Funny Ana Lana, O Amor é um gajo estranho ouPoppa Mundi, sem esquecer, obviamente, as canções mais recentes como Mr. Sorry, My Ra-Ta-Ta ou o a capella sentido de Noite de Chuva em Campo de Ourique. O público aveirense, que teve direito a dois encores, vibrou ainda ao som de uma versão de Recordar É Viver, de Vítor Espadinha, e de 20th Century Boy (um original dos T-Rex), à semelhança do que aconteceu no concerto de apresentação do novo disco, que decorreu em Lisboa, em Junho.

Visivelmente bem-disposto e comunicativo, apesar de ter passado a maior parte da actuação sentado, o vocalista confessou gostar muito da cidade, relembrando concertos míticos da carreira dos Pop Dell’Arte. João Peste é uma figura teatral, expressiva que, com a sua aura negra e com os seus poemas fonéticos, imprime uma textura mais densa, mais sentida às canções, ora fechando os olhos, ora usando a sua expressão corporal.

Musicalmente, os Pop Dell’Arte continuam com os pormenores que marcaram os anos mais ricos da música portuguesa. Um baixo extremamente bem colocado; uma mistura entre samples de electónica com percussão de qualidade e uma capacidade, invejável, de se reinventarem, de se reafirmarem, sem nunca, contudo, perder o cariz e a identidade pelas quais se tornaram conhecidos.

Por isso tudo, é muito complicado destacar um momento-alto deste concerto. Claro que os temas históricos provocam ovações na plateia e é óbvio que os momentos de “transe” de João Peste também. No entanto, Wild’N’Chic, porventura a canção mais épica de Contra Mundum, e por isso muito emotiva, será uma fotografia que quem esteve em Aveiro levará na memória.