Os Eagle Twin passaram pelo Porto-Rio com a óptima companhia dos britânicos Pombagira e proporcionaram, a quem teve a coragem de comparecer, uma noite de verdadeira demolição. Ou antes ‘doomolição’, da boa e com todo o sentido, ou não fossem as duas bandas partilhar um split, editado no passado mês de Outubro. “Baixos para quê?” é a pergunta retórica que raramente assenta num concerto, mas neste caso cai que nem uma luva. Os graves destes dois duos foram tão baixos que, provavelmente, vão-se fazer sentir nas perdas bambas do seu público durante a próxima semana.

A noite, que no Porto-Rio começa sempre com os banhos de Porto reflectidos no Douro, teve como primeiros anfitriões os britânicos Pombagira, que demonstraram uma simpatia larga por debaixo de um aspecto e sons bestiais, falando o quanto basta no início, no fim e entre algumas músicas do concerto. E não nos deixemos enganar pelo primeiro – apesar da aparência frágil da baterista Carolyn, que contrasta com a descomunal presença de Pete, guitarrista e vocalista, esta sabia como se esconder por detrás de uma farta cabeleira e impor a cadência à música arrastada do duo.

Por entre fuzzes e mais fuzzes e um delay mais ocasional, mas nem por isso menos bem-vindo, a guitarra dos Pombagira gritou mais alto do que toda a possibilidade (durante a maior parte do concerto, engoliu completamente o som do pré-amplificador e a bateria, cujos timbalões ficaram na imaginação da audiência a acompanhar os longínquos pratos) e com sons mais baixos do que seria de imaginar para um bichinho com cordas tão finas, mostrando que, apesar de terem um nome giro, não se tratam de uma banda apenas gira. Com a lição bem sabida, osPombagira podiam ser muito bem professores do género em que se movem.

Tinham as variações certas nas alturas certas e a presença indicada para quem gosta de curvar a espinha até bater com o nariz no chão, sempre adornada com a química típica dos duos, que gostam de tocar de olhos nos olhos. Pormenor que é, aliás, indispensável, principalmente para uma banda que tem de fazer a gestão dos seus silêncios sempre em tempo, como era o caso.

De riff em riff, os britânicos prepararam bem a cama para os Eagle Twin se deleitarem na sua área: a do doom de pelo na venta. Gentry Densley e Tyler Smith começaram por se olhar nos olhos e, provavelmente, rezar pelo público, movidos pela pena de saberem em antecipação o concerto destruidor que tinham preparado. Se os Pombagira eram professores, os Eagle Twin mostraram-se verdadeiros mestres.

O vocalista e guitarrista, na falta de instrumentos esotéricos à la OM, começou por entoar de forma muito oriental e gutural as primeiras palavras da viagem de uma hora em que o Porto-Rio embarcou, enquanto que o baterista, por sua vez, iniciou de forma peculiar a vigorosa e longa agressão ao seu instrumento com um estridente “riscar o prato com a ponta da baqueta.”

Toda a actuação dos Eagle Twin, ininterrupta, foi dotada de uma agressividade valente, para dizer a verdade, com os gritos de Densley a cravarem-se entre os seusriffs super-graves e a bateria imponente de Smith, quer quando atirados para o microfone ou quando atirados para os pick-ups da guitarra, que os distorciam dolorosamente.

A primeira música desde logo ditou o ritmo a que o concerto ia decorrer: de forma inconstante. Tanto podíamos estar a ouvir um verdadeiro sludge demolidor e acelerado, como éramos levados para momentos em que a música se resumia a um acorde de guitarra por compasso de uma bateria cheiíssima, como até para, neste último caso, um solo entre acordes graves, sempre com a resistência da psique da audiência a ser testada ao extremo.

Não raramente, o vocalista orientava muito a sua voz para os momentos em que a bateria se ausentava – e que o baterista preenchia a mexer e a ajeitar nervosamente os pratos e a afinar os timbalões –, algo que foi compensado na última música com um quase-solo de percussão a introduzir o último capítulo desta jornada do Douro, sempre ao sabor da violência com que cada estocada de Smith era proferida. Aliás, isto levou mesmo à queda de uma parte da bateria do estrado.

As únicas palavras dos Eagle Twin chegaram mesmo no fim da actuação, para agradecer. Mas, depois de uma actuação destas, só se pedia mesmo um minuto de silêncio pela memória dos nervos que se foram. E que bem que eles foram. Se pudesse, repetia amanhã.

AQUI estão disponíveis algumas fotografias.