Peter Murphy não se transformou num ícone por mero acaso e a sua entrada no palco do Coliseu de Lisboa comprovou-o. Afrontado por problemas técnicos e pela ausência de in-ear, Murphy largou o casaco, descalçou-se e assumiu papel de maestro numa orquestra que, claramente, não esteve ao nível do britânico.

Num som que quase sempre se mostrou embrulhado, abafando inclusive a sua ainda portentosa voz, Peter Murphy percebeu que teria de agarrar de imediato o público pelo colarinho. Aproveitando mais um problema técnico, desta vez com o baterista, o britânico decidiu saltar Memory Go (do seu Ninth, o mais recente disco a solo) e puxou Hurt, a eterna música de Nine Inch Nails (com quemMurphy tem uma estrita ligação), para cima, atacando-a minimalisticamente. O Coliseu, ainda atarantado pelo atribulado início de concerto, lá se deixou cativar, abrindo portas, a partir daí, para uma actuação robusta. Um golpe de mestre; mestre queMurphy é, em definitivo.

Em deambulação constante pelo palco, mostrando subtis passos de dança, o ex-vocalista dos Bauhaus não fez, claro está, somente uso de Ninth. O verdadeiro coração da música do britânico ainda bate nos anos 80 e 90 e foi lá que Murphy foi buscar I’ll Fall With Your Knife e All Night Long, duas das suas mais proeminentes músicas a solo, e, inevitavelmente, She’s In Parties, da banda à qual estará para sempre ligado. Como seria de esperar, o Coliseu, longe de uma enchente, respondeu com um fechar de olhos e com um coro que encantou Peter Murphy, especialmente quando recuperou Cuts You Up.

Entoando a melodia da música de Deep durante toda a pausa do encore, o público lisboeta trouxe o britânico do backstage para umaStrange Kind of Love arrebatadora. Uma despedida categórica de um músico cuja alma e personalidade transbordam a sua esguia silhueta. Um músico que, apesar de transportar consigo todo um altivo legado, humildemente agradeceu durante vários minutos a entrega de quem o foi visitar ao Coliseu dos Recreios. Se assim já foi bom, imagine-se como teria sido sem percalços e com, diga-se, uma banda de melhor qualidade.

A abrir esteve Michael Shapiro, um músico desconhecido, que tentou conquistar a plateia com as suas criações acústicas. Durante quarenta minutos, Shapiro pouco mais trouxe do que banalidade musical, num folk  à Springsteen, compensando-a com elogios a Lisboa, bom humor e, até, uma foto a quem assistia ao seu concerto.