Os anos passam e os Pere Ubu continuam a construir a sua história e, mesmo que tenhamos estado arredados de o presenciar quantas vezes o desejaríamos – esta foi apenas a segunda vez que tocaram em Portugal e catorze anos depois da estreia -, o mito sobrepõe-se a todos os nossos desejos. Se o físico de David Thomas parece estar a sofrer as consequências da idade, a sua perspicácia e bom humor continuam em excelente forma. Como tal, a forma como percepciona a música do colectivo acabou por justificar a apresentação que fez para a divisão do concerto em duas partes: a primeira imatura e a segunda mais profissional.

Sentado em frente ao seu cardápio de letras – desta feita não houve dança – pareceu com aquele seu ar de bom rezingão, intimidatório e quase displicente em relação a toda a música que era criada pela banda. Pura ficção. De olhos semicerrados e de perna cruzada, optou por erguer as mãos para definir a corrente de som que em alguns momentos pareceu viver de improvisação. Aos juízos e vontades que estabeleceu para os seus Pere Ubu, David utilizou diferentes formas vocais, ora faladas, ora sussurradas ou no seu característico falsete. Não há que o esconder, foi esta singular e histórica personagem que conduziu o destino dos temas, dando, apesar disso, liberdade a que a melodia do clarinete ou os efeitos dos ilusionismos dos teclados, reclamassem uma parte do império sonoro.

Terminado o segmento inicial, o segundo trecho acabou por fazer jus a todos os adjectivos meritórios que ao longo de décadas lhes têm sido destinados. “Come Home”, retirado do longínquo “Story Of My Life”, serviu para comprovar a vertente mais expectável: música iradamente ritmada com as palavras a seguirem em modo de intervenção. Assim, ninguém melhor para o dizer que o próprioDavid Thomas, recordando que aquando do concerto anterior em Lisboa eram lendários, mas que agora o estatuto era mítico, mesmo que decrépitos. Estadio esse que não se atestou nas composições instrumentais tão bem arranjadas e contrastantes com a voz difusa.

Ciente da importância que o entretenimento tem e cedendo aos seus ímpetos, “Carnival”, do mais recente “Carnival Of Souls”, foi acompanhado por um estranho despir e vestir da sua meia. A que se deveu? Talvez só o próprio o saberá. O que quem marcou presença nesta ocasião esgotada soube é que, tanto a malha datada “Nevada”, como a recente “Road To Utah”, permitiram perceber que a base de experimentação foi e será sempre o motor de busca, quer seja pela inclusão de novos instrumentos, quer pela desconexão que tantas vezes se operou nos sons que vocalmente eram emitidos, nomeadamente, as palavras vociferadas através de um cone, dando o teor de profeta e portador da verdade, qual aglutinador de almas.

Antes da estranha sessão de venda de merchandise ainda com a banda a tocar, David Thomas afirmou que nem nós precisamos dele, nem eles precisam de nós e essa é uma bonita base para um relacionamento. Esperemos que esta não tenha sido a derradeira despedida e que esta relação possa vir a ter novos capítulos de proximidade.