Na literatura, nem sempre são as melhores estórias que fazem os melhores livros. Por muito que Boris Vian nos delicie, escritores como José Saramago e Gabriel Garcia Marquez têm, também, algo a dizer, ao conseguirem falar de acontecimentos banais como a vida de um homem que trabalha num arquivo ou do surgimento de uma aldeia em total isolamento.

O post-rock vive uma época em que as suas narrativas, apenas, já não servem como porta estandarte para o género, principalmente quando bandas como os Godspeed You! Black Emperorelevaram o típico crescendo infinito a um ponto muito difícil de igualar. Bandas como os Pelican, surgidas no ex libris do post-rock, têm, também, a tarefa difícil de lidar com o declínio deste tipo de narrativa-sónica e de criar novas formas de apresentar melodias. O novo EP Ataraxia / Taraxis põe-nos ao nível dos Russian Circles, nesse aspecto, com uma forma de contar estórias própria e, acima de tudo, válida.

Com a fórmula típica gasta, da qual também viveram, os norte-americanos muniram-se de novos argumentos neste EP, nem que seja a ideia simples de “a acção não vive da resolução de um só problema,” isto é, os momentos das músicas, as suas dinâmicas e intensidades, variam não rara e eficazmente, o que, de resto, dá uma vida às músicas que capta a atenção do ouvido e o estimula. Não se ficando por aqui, os Pelican afastam-se das linguagens puramente electrificadas e somente pesadas, acrescentando composições mais ambientais, lideradas pelo som da guitarra acústica.

Ataraxia / Taraxis vive, assim, na tensão do som característico dosPelican, a pender constantemente entre o muito grave e o agudo ao nível melódico, e de linguagens mais folk, que, de forma surpreendente, tão bem encaixam neste post-rock. Os Pelican continuam inconfundíveis, mas conseguiram, finalmente, chegar ao ponto em que a orientação na natureza, que parecia condicionar as suas temáticas, chega aos ambientes urbanos. É curioso que o façam através de sons menos processados. E assim vai sobrevivendo, e bem, o post-rock.