Faltava pouco para as onze horas do costume quando os Part Chimp iniciaram as negras festividades em que envolveram o muito cheio Meu Mercedes. Isto dito por quem estava rodeado de muita gente de olhar perplexo e fixo no palco, ou a expectativa era muita, ou o espanto de os Part Chimp serem totalmente humanos era maior, mas a verdade é que as atenções estavam mesmo todas concentradas naquele cantinho do inferno onde tocavam Tim Chimp, Iain H.Joe Totale e o baixista convidado.

Convém, mesmo sublinhar a situação infernal do Mercedes, na Ribeira do Porto, onde a temperatura do ambiente era tal que só a simples presença era razão suficiente para destilar em suor. Era essa, provavelmente, a razão maior para a fraca actividade no público, facto que até levou o vocalista dos britânicos a estranhar o pedido de encore (“de certeza que querem mais?”). Mas cedeu à pressão ruidosa. E aqui é caso para dizer que amor com amor se paga.

O ruído vindo do palco era tal, a violência da música, de tão directa, era tanta, que se eu não estive no inferno, no tal inferno, estive a uns pés de lá. Contudo, tenho a dizer que se pudesse ia lá fazer outra visitinha, desde que o ambiente fosse exactamente o mesmo, ou seja, desde que os Part Chimp lá estivessem para nos fazer companhia.

O rock dos londrinos mostrou-se eclético e envolvente, levando muita gente nas suas guitarras gritantes sem que nenhuma vontade vergasse. As vontades eram toda deles e as atenções também — o que é uma banda pode querer mais? O tal pedido de encore? A dita actividade e movimentação? Desculpem-me, o calor era mesmo imenso, no entanto, admito o exagero da descrição acima: aqui e ali notava-se o curvar claro de uma ou outra espinha, especialmente quando a música destes rockeiros acalmava o andamento e crescia em peso.

Aliás, vamos ao rock dos Part Chimp, à sua música, às vezes quase primária, mas com as características chave de um bom DIY à moda antiga, só que na versão século XXI da coisa, ou seja, inventado à pala de muita macacada e muita evolução, também. Havia nele os momentos óbvios do sempre-para-frente, com batidas a mil à hora e muitas dissonâncias à Sonic Youth, que depois se quedava em grandes quebras de ritmo, para um peso demolidor e gravíssimo, quase à moda do doom. Uma combinação violenta e infernal conduzida pelo timoneiro, guitarrista e vocalista, Tim Chimp, que liderava a banda com sinais de mãos e alguns acenares de cabeça, chaves do desenvolvimento das músicas, sempre entre os seus gritos maquiavélicos, agudos e bem punk, atirados tanto durante as músicas, como entre elas, em agradecimentos. Não foi, talvez, por acaso que senti que, a cada agradecimento do vocalista, um pedaço da minha alma era vendido ao mafarrico.

Foi, verdadeiramente, num ambiente demoníaco que a actuação dos Part Chimp decorreu, e, do fundo do que resta da minha alma, há que lhes agradecer pela actuação revigorante. Tim Chimp foi o belzebu que deu as boas vindas não só ao seu próprio inferno, onde a música é rock do bom e do lixado, como aliás dizem as línguas beatas que é, mas também ao reinício da actividade da promotora Amplificasom, que retomou os concertos com o trio londrino, ou seja, da melhor maneira.